Política

Leandro Narloch o autor do Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil’ se diz politicamente correto. “Eu atravesso uma pista na faixa de pedestres”. Quando fala, parece estar nervoso. No entanto, são suas palavras que tem mexido nos nervos de certas pessoas. Critica a esquerda. Porém, não se define de direita (dicotomia que nem deveria mais existir). Conversei com Leandro, papo que me rendeu uma ótima entrevista.

Leandro Narloch

                                                                                                               Por Felipe  Lucena

Leandro, na época que foi lançando o “Guia politicamente incorreto da história do Brasil” você disse que seu objetivo com o livro era “enfurecer um bom número de cidadãos”. E aí, conseguiu?

Consegui sim. Muita gente que usa a história como política fica nervosa com o sucesso do livro.

De onde veio a inspiração para você escrever o livro?

Eu percebi que muito do que aprendi de história do Brasil era mais um discurso político marxista que ciência. Aprendemos na escola não história, mas ideologia de luta de classes e dominação internacional aplicada à história. Como surgiram muitos excelentes estudos acadêmicos desde os anos 90, passei a coletar material que mostrasse erros dos mocinhos e virtudes dos vilões.

Os índios não foram tão vitimas dos europeus, Zumbi tinha escravos, a origem da feijoada é européia, Aleijadinho é mais literatura do que história, Santos Dumont não inventou o avião e os militantes da luta armada não deveriam ser tão romantizados. Tudo isso e muito mais está no livro. O que foi mais interessante ou divertido de expor no Guia?

Gosto muito do capítulo dos índios e dos negros. Na verdade, ao mostrar que havia diversas personalidades indígenas e negras, o livro é até politicamente correto. Faz lembrar que negros e índios não eram imbecis: não ficavam só apanhando ou obedecendo; traçavam estratégias e tinham poder para negociar e agir, de acordo com os costumes de sua época. A conquista e a escravidão limitava esse poder, mas não por completo.

Leandro, com o livro você mostrou outras facetas de muitos heróis brasileiros. Quais são os seus heróis, nacionais e/ou internacionais?

Meu herói nacional é o dom Pedro II. Nenhum presidente foi tão humilde, honesto e prudente quanto ele. Lá fora, é o Churchill. Um primeiro-ministro que ganhou o Nobel de Literatura, imagine só.

O seu próximo livro é um guia sobre a América Latina, quais as “veias abertas” que você pretende atacar dessa vez?

Sobretudo os comunistas que arrasaram países e são considerados heróis como o Allende e o Che Guevara.

Um livro sobre o Brasil, outro sobre a América Latina, vem um guia mundial por aí? O que podemos esperar?

A ideia era fazer um guia do mundo, mas não sei. Talvez alguma coisa sobre economia… Mas vou pensar nisso daqui uns seis meses, quando terminarem minhas férias.

Atualmente, no Brasil, vivemos uma onda de “politicamente correto”. Como você, que é autor de títulos que falam em “politicamente incorreto”, vê essa situação?

Acho que as duas ondas acontecem ao mesmo tempo, o que é possível numa sociedade livre e diversa. Há uma tendência politicamente correta e natureba na maternidade, na gravidez (contra, por exemplo, fórmulas artificiais de leite para bebês), na arte. Ao mesmo tempo, a história, que já foi berço desse tipo de movimento, está se distanciando dele.

Tem uma piada que diz assim “governar o Brasil é como masturbação masculina: você pega com a esquerda, mas toca com a direita”. Qual a sua visão sobre os posicionamentos políticos no Brasil?

É exatamente isso. Tem outra piada boa: o Lula (ou a Dilma, o Deng Xiaoping e tantos outros) está no carro passeando pela cidade. O motorista de repente se vê numa encruzilhada perfeita. Pergunta ao Lula: para onde eu viro, direita ou esquerda? Lula responde: “dá sinal para a esquerda, mas vira à direita”.

Leandro, você defende que o capitalismo é o melhor caminho para os pobres. Dizer isso no Brasil é como falar que matou os próprios pais. Quais argumentos você usa pra defender essa sua opinião?

O capitalismo livre (sem monopólios, estatais e privilégios) estimula a concorrência e o aumento do poder de compra. Ganha mais recompensa quem oferece cada vez melhores serviços por um preço menor. Essa tendência, repetida durante séculos, faz com que um antibiótico, uma aspirina ou um telefone celular (coisas que eu jamais conseguiria fazer sozinho) serem acessíveis por preços muito baratos. Antes do capitalismo, valia o sangue, o título de nobreza, o sobrenome. Quem era mais nobre tinha mais direitos. Com o capitalismo, isso mudou. Passou a ganhar mais recompensas quem oferece mais do que os outros consideram bem-estar por menor preço. Antes do capitalismo chegar de verdade ao Brasil, os pobres (e muitos ricos) simplesmente morriam antes de completar 1 ano. Quando roupas e remédios baratos chegaram por aqui, paramos de morrer.  Em 100 anos, a população brasileira aumentou mais de dez vezes. E o mais incrível: a pobreza caiu de 70% da população para menos de 30%. Para acabar por completo, é preciso mais capitalismo.

A grande maioria de pessoas que se interessa por política já flertou com as idéias de esquerda. Tem até uma frase do Churchill que fala sobre isso. Isso aconteceu com você?

Ser de esquerda é uma fase inicial da atividade mental, hehehe. Nos deparamos com pobres de lado, ricos de outro e chegamos ao raciocínio simples porém errado: a pobreza existe por causa dos ricos. Na verdade, a pobreza existe por falta de ricos.

Leandro Narloch é jornalista formado pela Universidade Federal do Paraná (UFPR). Trabalhou na revista “Veja”, na “Superinteressante” e na “Aventuras na História”. Leandro é autor do “Guia politicamente incorreto da história do Brasil” (Leya, 2009) e Guia politicamente incorreto da América Latina (Leya, 2011).

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