PESSOAS EM SITUAÇÃO DE RUA NO RIO

Moradores de Rua* Matéria publicada no site Diário do Rio

Por Felipe Lucena

 Não é de hoje que o Rio de Janeiro e outras cidades do Brasil e do mundo enfrentam uma grave situação. Contudo, devido a uma série de fatores, o problema vem aumentando no Rio. Dados recentes da prefeitura carioca apontam que 14.279 pessoas vivem nas ruas do munícipio. É quase o triplo das 5.580 registradas em 2013. A tendência é esse índice negativo subir ainda mais.

De acordo com estudiosos do assunto, a quantidade de moradores de rua cresceu junto com a crise econômica do estado, impulsionada pelo desemprego. Além da condição econômica, rompimentos com a família, abusos, álcool, drogas e transtornos mentais estão entre os principais motivos que levam a essa situação.

Segundo a Política Nacional para a População em Situação de Rua, essas pessoas são, em sua maioria, 82% do sexo masculino; 53% com idade entre 25 e 44 anos; 67% são negros; A maior parte (52,6%) recebe entre R$20,00 e R$80,00 semanais. Desses, 70,9% exercem alguma atividade remunerada. Apenas 15,7% pedem dinheiro como principal meio para a sobrevivência.

“Olham para a gente com nojo ou medo. Quando olham. Nem todos somos ladrões. A gente dorme na rua porque não tem outro jeito. Se abrigo fosse bom, não tinha ninguém dormindo em calçada”, contou Reinaldo, de 35 anos, que vive nas ruas do Centro do Rio há cerca de cinco anos.

A prefeitura da cidade do Rio de Janeiro tem 38 abrigos próprios, 22 conveniados e dois Hotéis Acolhedores, que são apenas para pernoitar. No total são 2177 vagas para uma população de mais de 14 mil pessoas, o que dá cerca de seis moradores de rua para cada leito.

A Secretaria de Assistência Social do governo Marcelo Crivella emitiu que é preciso aumentar o número de abrigos e intensificar o programa “De volta a terra natal”, que prevê o retorno de pessoas em situação de rua para suas cidades de origem. Além disso, Teresa Bergher, a responsável pela Secretaria, afirmou que vai incluir os moradores de rua em um cadastro único, para que eles sejam inseridos nos programas de complementação de renda, como o cartão família carioca.

Paralelo ao crescimento do problema surgem formas ativas de combater a grave situação. O Projeto RUAS (Ronda Urbana de Amigos Solidários Ações), criado em 2014, é uma delas. A iniciativa, que atualmente conta com cerca de 50 voluntários – ao todo já passaram mais de 300 -, consiste em ajudar pessoas em situação de rua das mais variadas formas. Nesses três anos de trabalho, oito pessoas em situação de rua retornaram para casa, 20 foram encaminhadas para obter identificação civil, três conseguiram emprego, quatro se encontram em processo de reabilitação (sendo acompanhadas por voluntários do Projeto), um passou por um tratamento em uma casa de reabilitação para usuários de drogas e segue trabalhando desde o final de 2016, além de outros resultados positivos.

Projeto RUAS em ação

Projeto RUAS em ação

 

“É necessário ter políticas públicas eficientes para promover a cidadania e a geração de renda. A maioria das pessoas que estão em situação de rua não recebeu uma boa base de educação, alguns se desenvolveram em ambientes hostis, sem referências, oportunidades e com vínculos familiares rompidos. Além disso, a sociedade precisa entender essa problemática de forma mais empática, principalmente na Zona Sul do Rio de Janeiro, infelizmente, ainda encontramos muitas pessoas revoltadas por encontrar uma pessoa em situação de rua no seu bairro, esquecendo-se que cada indivíduo, independentemente da situação em que se encontra, é um ser humano, com anseios, talentos e rico em potencialidades”, opinou Allini Fernandes, cofundadora do Projeto RUAS.

Ajuda ao projeto RUAS

Ajuda ao Projeto RUAS

 

No debate sobre a questão, surgem ideias diferentes. Muitas pessoas acreditam que embora o Poder Público precise estar atento ao problema, é preciso, também, que as pessoas atuem de forma mais intensa: “São necessárias ações concretas em conjunto com a sociedade civil e principalmente o interesse dos indivíduos que encontram em vulnerabilidade social desejarem levar uma vida com qualidade seja ela onde for. Por fim, o presente artigo tem a finalidade de provocar no leitor a ideia de articulação entre estado e sociedade para a superação de estigmas e preconceitos junto ao imaginário social, a partir de socialização de pesquisas, realização de debates, uso educativo da mídia e formação de multiplicadores, de modo que esses sujeitos possam ter visibilidade – mas como sujeitos de fato e de direitos”, escreveu Luiz Marcio Amaral de Matos, enfermeiro especializado em ações sociais, para o Portal Educação.

Dentro do problema, existem outras questões paralelas. As drogas – lícitas ou ilícitas –  são um fantasma constante para quem vive em situação de rua. Há quem entre nessa triste realidade por consequência de algum vício e quem entre no vício por estar nessa triste realidade.

“Eu não uso nada, só bebo. Mas muita gente usa. É o jeito. Nessa situação que a gente vive, acaba sendo o jeito”, frisou Pedro, de 50 anos, morador da região central da cidade do Rio de Janeiro. Pedro está em situação de rua desde quando chegou ao Rio, a sete anos, vindo do Paraná.

Outro ponto alarmante são as crianças. No final do ano de 2012, a Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República realizou uma pesquisa em 75 cidades do país (entre elas o Rio de Janeiro), e constatou mais de 24 mil meninos e meninas em situação de rua no Brasil. Os principais motivos são: discussão com pais e irmãos (32,3%); violência doméstica (30,6%) e uso de álcool e drogas (30,4%). Passados quase cinco anos completos, os números tendem a ter subido ainda mais.

Muitas cidades em diversos países conseguiram controlar de forma mais efetiva o problema das pessoas em situação de rua. Algumas com políticas públicas, outras com ações mais voltadas ao mercado de trabalho e à sociedade civil. O Rio de Janeiro precisa achar o seu caminho, afinal, essa situação não é boa para ninguém.


‘COMBATER O EI EXIGE UNIDADE’

Especialista em Oriente Médio comenta problemas da região, entre eles o Estado Islâmico

Por Felipe Lucena 

Em Bagda em 1979

Najad em Bagda no ano de 1979

Nascido em Trípoli, no Líbano, Najad Khouri tem 66 anos, uma esposa, três filhos e uma neta. Nos anos 1970, após ver um dos tantos gols de Pelé, na Copa do Mundo do México, decidiu vir ao Brasil para conhecer e trabalhar e por aqui ficou.

Especialista em Oriente Médio, Khouri, atualmente trabalha fazendo análises políticas da região para a Petrobrás e empresas parceiras. O conhecimento dos países que compõe essa parte do planeta é tão vasto que ele também dá palestras sobre o assunto.

Najad Khouri concedeu uma entrevista ao OCulto na qual esclareceu muitas questões atuais da geopolítica mundial entre outros assuntos.

Como começou sua carreira profissional e quando ela foi direcionada para a área do petróleo e energia?

Tudo começou com a faculdade em Campinas, fiz a PUC lá. Eu trabalhava para pagar os estados. Comecei a trabalhar no mercado de capitais e seguros e computação, depois quando a filial Interbras abriu escritórios no Oriente Médio, me candidatei e fui trabalhar no Iraque e Iran. Isso se deu durante a ascensão de Saddam Hussein ao poder e a chegada da revolução islâmica no Iran, além da guerra entre Iran e Iraque.

Quando saiu do ramo petrolífero, o senhor montou um negócio próprio, em outra área. Por que, depois de tanto tempo, uma a volta para um mercado tão denso e tenso como o do petróleo?

Abri uma pequena exportadora e importadora que virou uma loja de tapete bem sucedida, a Isfahan Tapetes e Kilims, com sede na Lagoa e filiais na Barra e Teresópolis. Quando eu estava pensando em me aposentar, porque meu filho assumiu a renovação e administração das lojas, fui reintegrado a Petrobras, onde estou atuando na área da estratégia corporativa de olhar sobre o Oriente Médio.

Como o senhor enxerga esses problemas pelos quais a Petrobras passa?

Não estou apto a falar sobre isso.

Najad Khory 01

Najad e um amigo no Clube Monte Líbano, Zona Sul do Rio

Seu conhecimento sobre a política e a economia do Iraque, Irã e Oriente Médio permite traçar melhor os problemas e desafios dessas nações. Poderia pontuar quais os principais problemas que esses países vivem e, sob o seu ponto de vista, o que os governantes desses países devem fazer para resolver essas questões?

Há disputas pela hegemonia politica, religiosa entre as duas potências regionais: Iran e Arábia Saudita que infelizmente está pipocando no Iraque, Síria, Iêmen, Líbano e Bahrain. Cada país com as suas características. A divergência enfraquece tanto os xiitas quanto os sunitas e permite o surgimento de força robusta Islamista, o Estado Islâmico que pode atracar os dois países.

 Como analisa as intervenções políticas, sociais, culturais e militares de alguns países do Ocidente na região do Oriente Médio?

Depois da Primeira Guerra Mundial, o Oriente Médio ficou sob a tutela da França e da Inglaterra.  E depois da Segunda Grande Guerra e com ascensão das duas superpotências Rússia e Estados Unidos substituíram a Europa e começaram a influenciar mais. Obviamente que a dependência do petróleo Árabe, o acordo de paz entre Israel e Egito e a hegemonia mundial aumentaram a influência norte-americana que é o pilar da segurança da península arábica e do tráfego marítimo mundial em geral e especificamente dos estreitos de Hormuz e Bab al Mandab  por onde passam metade do trafego mundial petrolífero.

Qual o tamanho da ameaça do Estado Islâmico? É preciso contê-lo? Se sim, como fazer?

É uma força robusta que vem desestabilizando a região com métodos não convencionais e crescendo onde tem Estados enfraquecidos ou ausência do Estado soberano. Combater o Estado Islâmico exige unidade, ação não só militar, mas inteligente – o que obviamente está faltando na região, portanto a situação está muito complexa.

Existem oportunidades de negócios para jovens brasileiros nos países do Oriente Médio? Quais oportunidades seriam essas e quais dicas daria para quem pretende sair do Brasil para buscar emprego ou renda em um desses países?

De exportação e trabalho na área de petróleo, de logística e de estudos avançados. Têm oportunidade a níveis médios também. Os países do Golfo estão crescendo muito.

Gostaria de deixar alguma mensagem final?

Vamos trabalhar juntos por um Brasil, um mundo melhor.


“DITADURA FOI NA ERA VARGAS”

Por Felipe Lucena

A história do Almirante Alfredo Karam se confunde com uma parte importante da história política do Brasil. Ex-Ministro da Marinha, durante o governo Figueiredo, ele fez parte do grupo de militares que estavam no controle do país quando a transição democrática se consolidou – entre 1984 e 1985. Karam decidiu ser marinheiro por volta de 1932 quando tinha cerca de oito anos de idade e era sacristão (ajudante de padre) na igreja São Francisco Xavier, Tijuca, Zona Norte do Rio de Janeiro. Em uma cerimônia de casamento, ele conheceu e passou a admirar o oficial da Marinha Ernani Amaral Peixoto, que na época era ajudante de ordens do primeiro governo Getúlio Vargas.

Durante os 46 anos na Marinha, Alfredo Karam recebeu 31 títulos e diplomas e exerceu funções de alta cúpula até chegar a ser Ministro. Entre esses trabalhos estão o de comando geral de operações navais, comando do primeiro distrito naval, diretoria geral do pessoal da marinha, entre outros.

Almirante Alfredo, como é chamado pelas pessoas que trabalham na cobertura que reside, na Barra da Tijuca, bairro nobre do Rio de Janeiro, é pai do ator Guilherme Karam, portador de Machado-Joseph, uma doença rara, crônica hereditária dominante, ainda sem cura, que por conta da expansão do trionucleotídeo cag, presente no cérebro, faz com que a produção de uma proteína chamada ataxina 3 seja afetada. Isso causa um processo degenerativo no sistema nervoso. O principal sintoma da doença é a ataxia: a alteração de equilíbrio e coordenação motora. A primeira esposa de Alfredo tinha a Machado-Joseph e faleceu por consequência da doença. Mario e Alfredo, filhos do ex-ministro da Marinha, também morreram desse mal. Luciana, filha mais nova do Almirante, é mais uma que luta contra esse grave problema.

Ostentando ótima forma física e muita firmeza emocional, prestes a fazer 90 anos, o Almirante Alfredo Karam recebeu a reportagem do Oculto em seu “museu pessoal” (um escritório no segundo andar da cobertura que mora onde ele guarda muitas lembranças da vida profissional e pessoal) para uma conversa.

Como o senhor chegou ao cargo de Ministro da Marinha?

Conheci o então presidente Figueiredo quando eu era Vice-Almirante. Ele era muito aficionado por futebol. Ele chegou a uma roda de pessoas da Marinha na qual eu estava e perguntou: “quem é que é Fluminense aí?”. Ninguém falou nada. Eu disse: “presidente, aqui só tem flamenguista”. Ele me perguntou se eu queria ver o próximo fla-flu com ele. Indaguei se poderia ir à paisana. Nós fomos.  No primeiro tempo, o Fluminense fez 1 a 0. Já no segundo, o Flamengo virou para 3 a 1. O Flamengo tinha um centroavante chamado Anselmo que fazia muitos gols. Ele fez três nesse jogo. Aí o Figueiredo me falou: “não vale me gozar”. Eu era o Almirante numero três, tinham dois na minha frente, pelo critério de antiguidade e hierarquia da Marinha, mas depois desse dia no Maracanã, o Figueiredo falou que queria que eu fosse Ministro da Marinha. Fiquei honrado e aceitei.

Esse foi um governo de transição democrática, como foi participar desse momento, havia alguém no alto comando militar que era contra esse processo?

Uma vez, em 1984, no dia 17 de setembro, eu era Ministro da Marinha, eu estava indo para o Rio de Janeiro para lançar um navio de assistência hospitalar. A madrinha desse evento seria a senhora do ministro da saúde, que era o Waldyr Arcoverde. Então eu recebi uma ligação do Ministro da aeronáutica, Délio Jardim de Matos. Ele me disse que iria mandar um avião me buscar porque haveria uma reunião de emergência da Granja do Torto, em Brasília. Nessa reunião estavam o presidente Figueiredo, o chefe da casa militar, Rubem Ludwig, o ministros do Exército, Walter Pires, o da Marinha, eu,  o da aeronáutica, Délio Jardim de Matos,  e outros ministros.  Nessa reunião foram discutidas medidas de emergência, diretas já e outros assuntos que estavam fervilhando na época. Num dado momento, alguém disse “presidente, qualquer coisa, a gente vira a mesa”. O presidente, visivelmente contrariado, disse que só se viraria a mesa com ele morto. Eu disse que a Marinha acompanharia o presidente. Eu sempre fui um homem de centro.

Como o senhor, que tem uma história de vida dentro do meio militar, enxerga algumas situações que acontecem no país, considerando a sociedade como um todo?

Precisamos de uma melhor educação. A educação militar tem sua flexibilidade. Dizem que o Exército é mais rígido. A Marinha menos e a Aeronáutica a mais branda de todas as Forças Militares. No colégio militar, aprendemos algumas coisas de forma mais rígida, mas há a sua flexibilidade. Não dá para comparar os dias de antigamente com os dias de hoje. Existe uma falta de respeito hoje em dia. Eu fui aos Estados Unidos uma vez em um quartel da Marinha e entramos em uma sala na qual um marinheiro estrava com os pés sobre a cadeira. Eu disse que não entraria na sala por causa daquela falta de respeito. O superior dele o mandou tirar os pés da mesa. Aí eu entrei. Eu nunca fui linha dura. Sempre fui do centro. Mas existe o mínimo de respeito que precisa ser praticado. A educação militar é baseada em hierarquia e disciplina, é disso que precisamos para que sejamos um povo mais bem educado.

Estamos em tempo de campanha eleitoral, como o senhor, que já foi ministro do país, vê o atual governo e o rumo das eleições?

O caminho que esse governo está tomando pode levar o país a um modelo falido, como Cuba e Venezuela. Muita coisa precisa mudar. O cara para legislar no Brasil não precisa de quase nada. Só ser brasileiro e ter mais de 35 anos! Precisamos de mais educação, com disciplina, e muitas outras reformas. Precisamos de uma reformulação geral na politica. Antes se ensinava politica nas escolas. A nossa economia está numa recessão grande. Tem que haver uma medida econômica social que modifique isso. O governo atual está dirigido para socializar, comunizar o país. É só ver quem eles abraçam e abandonam. São medidas tipicamente de um governo que quer o comunismo. Estamos caminhado para uma situação difícil. Mas vai chegar um ponto que o povo não vai aguentar mais. Eu vejo a possibilidade de uma guerra civil. Não sei bem como, mas vejo essa possibilidade. Eu sou totalmente antissocialista. O PT está estatizando as empresas. Quando o Estado toma o controle de tudo é pior para o povo. O governo pega os impostos e troca esse dinheiro por benefícios para ter votos. A falta de instrução da nossa gente é muito negativa. A televisão é muito negativa para a família. Essas novelas, cada coisa horrível. Essas deficiências levam a uma situação difícil. Na minha opinião o Brasil precisa de uma reforma geral: educação, saúde, segurança. Precisamos de disciplina, não repressão, e fiscalização. São fartotes que precisamos mudar e essas mudanças não serão agora. Infelizmente.

E o que o senhor acha que deve ser feito para melhorar essa situação que o senhor enxerga como adversa?

Precisamos de medidas efetivas e feitas com dinheiro que seria economizado por outros gastos públicos, como os com o congresso. Gastamos muito com tantos senadores, deputados e ministros.  O Brasil precisa de uma reformulação. Tem que reformular extremamente nosso congresso. Precisamos também de espirito publico. Isso é raríssimo entre nossos políticos. Precisamos de reformas politicas, econômicas, tributarias e dar maior proteção para as forças armadas.

Nos anos, 1960, enxergando uma situação que julgavam de risco, os militares tomaram o poder. O que os atuais deveriam fazer diante de tais problemas que o senhor citou, se é que deveriam?

Se eu estivesse na ativa, eu responderia isso. Mas hoje eu prefiro dizer que o militar se rege na disciplina e na hierarquia. Esse mau comportamento, essas badernas, já existiam no governo Jango. E nós impedimos. No contragolpe de 64, eu estava no Recife e lá era um foco de esquerda muito forte, perigoso, até. Miguel Arraias, avó do Eduardo Campos, que Deus o tenha, estava lá.

Quando o assunto é política, os militares costumam não ser muito bem recebidos nos debates, o que o senhor acha disso?

Existe uma campanha para deteriorar as classes armadas. Puseram esse espelho de ditadura, mas não foi uma ditadura. Ditadura foi na era Vargas. Levamos o país a se tornar a sexta economia do mundo. Nunca se fez tanta hidrelétrica. O acesso às telecomunicações se deu no governo militar. E não continuaram isso nos governos civis. Não dão valor. Existe uma propaganda para denegrir o militar. E para mudar isso só com educação. Criaram essa lei da anistia, uma comissão da verdade que é imparcial. Pode ter havido tortura em alguns órgãos, mas na Marinha eu não me lembro de ter visto. Pode ter havido no Exército, em alguns órgãos, como o DOI-CODI. Aí ensinam isso para os jovens. Uma visão deturpada.

Por que os militares não se manifestam contra ou quanto a isso?

Hierarquia e disciplina. Por isso os militares não se manifestam em relação a esse assunto.

Para complicar ainda mais essa questão, um dos poucos nomes da atual política do Brasil que levanta bandeiras em nome dos militares é o Jair Bolsonaro. Como o senhor analisa essa situação?

O Bolsonaro é uma pessoa que não controla os ânimos. Ele é um componente do congresso. Um dos poucos que fazem algo por nós.

E sobre militares no poder, diretamente ou como consultores, ministros etc de um governo civil, o que o senhor acha?

Não é função das Forças Armadas tomar o poder e governar. Mas pode-se ensinar. O militar tem noções de administração e economia. Temos militares que sobressaíram na administração pública civil. Não vejo problema em um governo civil ter militares como assessores, ministros e tudo mais. Não é necessário que seja um governo militar para arrumar o país. Precisamos de bons administradores.

O senhor ocuparia algum cargo público?

Desse governo jamais. Em outras épocas, sim. Já quiseram que eu saísse candidato, mas eu não quis. Recebi proposta do governo Lula para ser ministro, mas não quis, pois não caso com esse governo.

Partindo da ideia de que a função das Forças Armadas não é governar um país, por que tantos anos de governo depois de 1964?

Não era para ficar tanto tempo no poder. Mas não havia outros setores capazes de desenvolver o Brasil como ele foi desenvolvido. Ganhamos muitas usinas hidrelétricas, as telecomunicações, como já citei. Fizemos muito pelo país. O Figueiredo assumiu o poder com essa proposta de dar a democracia plena para o Brasil. Existia gente contra essa ideia lá, mas o presidente estava determinado.

O que o senhor acha de o ministro da defesa não ser um militar?

Eu sempre fui contra a criação do ministério da defesa. Mas já que existe um ministério, eu acho necessário que o ministro da defesa seja um militar. As Forças Armadas quase não foram beneficiadas por nenhum deles. O Jobim conseguiu algo para nós. Foi o único. Mas eu sou contra o ministério da defesa. O que o ministério da defesa trouxe para nós brasileiros? Despesa. Quando o ministro da defesa vai falar com o presidente da república, ele tem q levar um comandante de alguma força armada. Eles são civis, não entendem de certos assuntos militares.

O senhor falou da falta de apoio que Aeronáutica, Exército e Marinha sofrem. Do que precisam as Forças Armadas?

As Forças Armadas precisam de mais apoio do Estado. Falo especificamente da Marinha: não temos conscientização marítima. Nossas lagoas são poluídas. Temos muitos problemas marítimos e a Marinha tem que resolver sem tanto apoio do governo. Temos minerais, riquezas, embaixo d’água. Tem muita pesca ilegal no Brasil. A Marinha precisa de apoio para resolver certos problemas.

Qual a função das Forças Armadas em um país que não entra em guerra?

Não entramos em guerra, mas temos que estar preparados. “Se queres paz, te prepara para guerra”. Nossa Amazônia é muito cobiçada. Nós temos um país maravilhoso. Tem muita gente querendo dividir o Brasil. O governo tem que ter atenção com essas coisas. Não pode dar espaço para certas possibilidades. O policiamento da Amazônia deve ser feito pelas Forças Armadas.

O que o senhor acha da presença de militares nas ruas, como em manifestações populares e jogos de futebol?

Lugar de militar não é na rua, nem em estádio de futebol. Sou contra isso. As Forças Armadas não são para isso. Falam mal das Forças Armadas, mas quando precisam, chamam.

Há anos atrás saíram notícias que diziam que a Marinha havia vetado uma proposta de transporte público hidroviário no Rio de Janeiro. É verdade?

Nos meses de julho e agosto esse mar fica muito bravo. É perigoso. Não é qualquer embarcação que faz isso. Mas a Marinha não tem nada a ver com isso. Isso é com o Ministério dos Transportes. Não sei se a Marinha pode vetar algo do tipo.

Como o senhor, que tem uma visão estratégica, enxerga a guerra entre Israel e Palestina?

Essa situação da guerra é complicada. Muito. Uma rivalidade muito grande. Principalmente depois da criação do estado de Israel. Mas na minha visão não haverá um entendimento definitivo. Não quero ser pessimista, mas pelo o que eu venho observando, acompanhando, não haverá entendimento. E Israel tem o apoio dos Estados Unidos. Deus permita que haja um entendimento, mas eu acho difícil. E agora tem esse Estado Islâmico, que é uma barbaridade.

Falando da sua vida pessoal, como o senhor preenche seu tempo atualmente?

Quando me aposentei na Marinha, cheguei a trabalhar em algumas empresas civis por um tempo. Hoje em dia eu me dedico inicialmente aos meus filhos doentes. Vou também ao Clube Naval, ao Clube Monte Líbano. E faço afazeres domésticos. Coisas comuns. Deus me deu saúde para enfrentar os problemas. Eu peço a Deus para meus filhos não sofrerem. 

Quer deixar alguma mensagem final?

Tenho a dizer que torço para que esse país consiga por em prática as reformas necessárias que falei antes e melhore. Do jeito que está não dá. Torço por isso. O Brasil é maior que os problemas.


“EXÉRCITO NÃO TEM QUE GOVERNAR”

Por Felipe Lucena

Um apartamento em Ipanema, Zona Sul da cidade do Rio de Janeiro, pode esconder muitas revelações. O ano de 2014 marca cinco décadas do golpe militar que implantou uma ditadura no Brasil. Aproveitando a data simbólica, em uma conversa com Agrício de Faria Pimentel, de 89 anos, que foi coronel do exército durante os anos de chumbo, o OCulto consegui uma entrevista repleta de reflexões sobre certos assuntos que estão em alta no momento.

O senhor pode contar um pouco da sua carreira, trajetória profissional?

Estudei no Pedro II. Entrei lá com 10 anos e com 15 anos eu já era bacharel formado em Ciências e Letras. Naquela época, as pessoas no Brasil não tinham muitas opções de profissões que possibilitassem viver uma vida com uma segurança financeira. Quando terminei meus estudos no Pedro II, fiz prova para a Escola Militar e passei. Eram 3.000 candidatos para 100 vagas. Com 19 anos, já estava formado aspirante a oficial do exército, pela Escola Militar. A partir daí, fui para Bagé, no Rio Grande do Sul, servir na Cavalaria do Exército, nas fronteiras, que é uma função comum da cavalaria. Tornei-me tenente, no Exército, formei-me professor de educação física. Aos poucos, com muita dedicação e empenho, fui subindo de patente: cheguei a Capitão, Major, Tenente-Coronel e Coronel – quando comandei o Batalhão de Manutenção e Armamento em Deodoro. Fui, também, chefe do Estado Maior da 2ª Região Militar de São Paulo.

Quando o senhor começou nas Forças Armadas, o mundo vivia a segunda guerra mundial. O Senhor foi à guerra?
Na época, o Brasil entrou como aliado, mas a guerra já estava sendo comandada por outros países. O exército brasileiro só levou para guerra um esquadrão. Eu me apresentei como voluntário, mas não eram tantas vagas, então não fui para guerra.

O Senhor trabalhou fora dos quartéis. Como foi essa convivência com civis?
Eu sou um militar diferenciado. As circunstâncias da vida me ensinaram a ter uma visão um pouco diferente do mundo e das coisas. Quando eu era Major, fui chamado para trabalhar na Companhia Nacional de Álcalis, que faz barrilhas – um produto essencial na composição de todo e qualquer tipo de vidro. Essa companhia foi construída em Cabo Frio, em Arraial do Cabo, era uma empresa mista, como a Companhia Siderúrgica Nacional. Então, não havia problema de um militar trabalhar lá. Um general, com o qual já havia servido antes, foi chamado para ser o presidente dessa empresa e me convidou para trabalhar com ele, como diretor. Essa convivência com civis me fez crescer muito. Foi bastante enriquecedor, aprendi muito sobre gestão de mercado, valor de produto, por exemplo. Então, pude usar esses ensinamentos em prol do Exército, quando, depois de dois anos na Álcalis, fui convocado de volta para trabalhar diretamente no Exército.

Como o senhor analisa a relação do Estado com as Forças Armadas, considerando que o governo brasileiro investe cada vez menos nas forças militares?
Temos que fazer uma reformulação. Não podemos continuar com umas Forças Armadas precárias. São as Forças Armadas que asseguram o respeito dos demais países para o país, no ponto de vista de um contexto mundial. Por isso ninguém se mete com os Estados Unidos, pelo fato de eles serem uma potencia bélica. O Exército de um país precisa ser forte para assegurar que esse país se mantenha forte.

O que pensa do Ministério da Defesa ser dirigido por um civil? Isso é bom ou ruim para as Forças Armadas?
Eu vejo o Ministério da Defesa funcionando bem. A grande vantagem de ter um civil como ministro da defesa é o fato de ele ser ter experiência como diplomata. Um político é mais capaz de expor ao presidente e ao Legislativo as questões que tocam as Forças Armadas.Talvez um militar não soubesse fazer certas negociações que um chefe com maleabilidade política sabe fazer. Eu não vejo nenhum mal em ter um civil como ministro da defesa.

Esse ano, completamos 50 anos dos incidentes que levaram o Brasil a viver um longo período de ditadura militar. Como o senhor analisa toda essa questão?
As Forças Armadas são instituições democráticas e defensoras da democracia do seu país. Naquela época, o Exército seguiu diretrizes com base em avaliações estratégicas das Forças Armadas. Os comunistas queriam transformar o Brasil em uma nação socialista e isso não era o desejo da sociedade brasileira da época, basta lembrar da Marcha da Família. O Exército agiu em prol da democracia, do desejo da sociedade e em defesa dos interesses do país.

Mas o Senhor não acha que as Forças Armadas ficaram mais tempo do que deveriam na administração do país?
Sim. Considero que o Exército deveria ter transferido o poder de volta para a nação e sua base democrática, o Congresso, logo após ter conseguido conter esse problema da implantação de uma ditadura de esquerda. Considero que as Forças Armadas exerceram seu papel constitucional defendendo a soberania da nação, mas passaram do ponto. Não sei dizer o motivo. Deveriam ter preparado o ambiente para a volta democracia, para devolver as rédeas da nação a um governo civil eleito democraticamente, como aconteceu no final do governo militar. É uma opinião pessoal, mas acho que o Exército estendeu-se muito na direção do Brasil.

Como o senhor avalia a questão das torturas e registros de outras formas de violência durante a ditadura?

É muito simples: quem cometeu crimes, dos dois lados (militares ou militantes), deve pagar por isso.

Havia mais ou menos corrupção no governo militar, em comparação aos governos civis?

Fala-se em corrupção durante esse período, mas nenhum dos presidentes ficou rico. Como não trabalhava diretamente no alto comando, sei pouco sobre isso.

Hoje, usando como motivo os altos índices de criminalidade e de corrupção que há no Brasil, muita gente fala que a volta das Forças Armadas ao poder seria a solução. O que o senhor acha disso?
Eu discordo veementemente. O Exército não tem que governar um país. É importante que todos entendam que não é função das Forças Armadas intervir para combater corrupção ou para diminuir índices de violência urbana. Isso é uma missão da sociedade e das instituições que fazem parte dela e que foram instituídas para essa finalidade. O exército é uma parte desse todo chamado sociedade, mas tem suas funções claramente definidas na Constituição. Não acredito que uma intervenção militar deva ser feita para resolver questões que podem ser resolvidas pela sociedade e por outras instituições democraticamente instituídas. Lembro que no seu artigo 142, a Constituição Federal declara que as Forças Armadas são instituições nacionais organizadas com base na hierarquia e na disciplina, sob a autoridade suprema do Presidente da República, e destinam-se à defesa da Pátria, à garantia dos poderes constitucionais e, por iniciativa de qualquer destes, da lei e da ordem. Fica claro, então, que as Forças Armadas fazem parte do Estado democrático, de um time que governa o país – Presidência da República, Senado Federal e Câmara Federal – mas com funções definidas. E intervir na direção de uma nação em razão dos problemas contemporâneos, não é uma de suas destinações.

O que o Senhor pensa do uso de tropas militares ao lado da polícia nas ruas?
Não é função das Forças Armadas ir para a rua, em grandes centros urbanos, para combater a criminalidade. Sempre achei muito perigoso o Estado colocar militares nas ruas. O Exército e as demais Forças Armadas estão preparados para atuar em guerras, não em conflitos onde existem civis. Os armamentos do exército são para guerra – atirou, matou. Então, é um perigo ter isso nas ruas. Constitucionalmente, e resultado da ação democrática da sociedade civil e dos parlamentares consolidada na Constituinte de 88, a instituição que tem por obrigação dissolver tumultos e dar segurança urbana ao cidadão e às instituições democráticas é a Polícia Militar. Por essa razão e para isso seus integrantes são treinados de uma maneira específica. Seu armamento também é outro. Eles contam com bombas de gás, bala de borracha e outros instrumentos específicos para o controle e a repressão da violência urbana. Nas ruas é a polícia quem deve atuar.

Para encerrar, o que o senhor espera para o futuro do Brasil?

Eu sempre vou torcer para que esse país vá bem. Sempre.


REVISTA MAIS TEMIDA DO BRASIL

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Por Felipe Lucena

A revista Piauí é uma publicação composta por matérias jornalísticas ricas em detalhes.  Esses detalhes têm ajudado para que alguns debates sejam levantados e para que “tabus” sejam derrubados. Por coincidência ou não, depois de entrevistas à revista, o ex-ministro da defesa Nelson Jobim perdeu seu mandato, o ex-presidente da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), Ricardo Texeira, deixou o poder e as opiniões do pastor evangélico Silas Malafáia passaram a ser publicamente discutidas.

Nelson Jobim foi Ministro da Defesa do Brasil do dia 25 de junho de 2007 até 4 de agosto de 2011. Jobim se demitiu do mandato dias depois que uma edição da Piauí chegou às bancas. Nessa publicação, ele disse que a Ministra de Relações Institucionais Ideli Salvatti era “muito fraquinha” e a Ministra-Chefe da Casa Civil Gleisi Hoffmann “sequer conhece Brasília”.

Ricardo Texeira presidiu a CBF por 23 anos. Durante essas mais de duas décadas, denúncias e mais denuncias de corrupção em seu mandato foram divulgadas pela mídia. No entanto, uma entrevista dada à Piauí jogou de vez o assunto para o debate popular. Na edição de julho de 2011, Ricardo deixou público que tinha total controle sobre o futebol nacional e que nada, nem ninguém, o impedia de fazer o que queria. Em março deste ano, ele renunciou o cargo sob uma chuva de notícias que colocavam em cheque a honestidade de sua gestão.

Nos últimos meses, uma polêmica briga entre as igrejas Universal, Mundial e Assembleia de Deus ganhou destaque nos noticiários brasileiros. Apesar de o conflito entre relegiões ser tão antigo quanto as mesmas, pode se dizer que tudo “começou” depois que a entrevista que o Pastor Silas Malafia concedeu à Piauí foi publicada. Silas criticou líderes de outras igrejas, questionando a forma como eles administram o dinheiro que é dados pelos fiéis.

“Vê se outro pastor faz isso que eu faço. Eu divulgo onde gasto cada centavo que recebo. Vai lá no R. R. Soares e manda ele dizer onde ele põe a grana, vai lá no Edir Macedo e vê se ele abre as finanças dele”,  disse Silas em um trecho da entrevista.

Para João Moreira Salles, idealizador da Piauí, o que a publicação faz é contar bem uma história. Na edição deste mês, a revista traz a matéria “Escândalos da República”, que mostra onde foram parar os jornalistas que cobriram o impeachment de Fernando Collor.


PRESIDENTE KENNEDY É DO BRASIL

Reginaldo dos Santos Quinta é Prefeito de Presidente Kennedy

Por Felipe Lucena

Presidente Kennedy não é um ex-presidente norte-americano. Presidente Kennedy é uma cidade do Espírito Santo, no Brasil. Presidente Kennedy é o Brasil.

Neste município que recebe 20% dos royalties do petróleo do estado, foi descoberto um esquema de desvio de verba pública que o prefeito é o chefe. A sobrinha do político, integrantes da comissão de licitação, empresários e dois policiais militares, sendo um deles o Comandante da Guarda Municipal também faziam parte da sujeira.

Em uma escala muito maior, envolvendo mais gente importante, isso acontece em todo o país. Presidente Kennedy é do Brasil. Presidente Kennedy é o Brasil.


ENTREVISTA COM LEANDRO NARLOCH

Leandro Narloch o autor do Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil’ se diz politicamente correto. “Eu atravesso uma pista na faixa de pedestres”. Quando fala, parece estar nervoso. No entanto, são suas palavras que tem mexido nos nervos de certas pessoas. Critica a esquerda. Porém, não se define de direita (dicotomia que nem deveria mais existir). Conversei com Leandro, papo que me rendeu uma ótima entrevista.

        Leandro Narloch                                                                                                       Por Felipe Lucena

 

Leandro, na época que foi lançando o “Guia politicamente incorreto da história do Brasil” você disse que seu objetivo com o livro era “enfurecer um bom número de cidadãos”. E aí, conseguiu?

Consegui sim. Muita gente que usa a história como política fica nervosa com o sucesso do livro.

De onde veio a inspiração para você escrever o livro?

Eu percebi que muito do que aprendi de história do Brasil era mais um discurso político marxista que ciência. Aprendemos na escola não história, mas ideologia de luta de classes e dominação internacional aplicada à história. Como surgiram muitos excelentes estudos acadêmicos desde os anos 90, passei a coletar material que mostrasse erros dos mocinhos e virtudes dos vilões.

Os índios não foram tão vitimas dos europeus, Zumbi tinha escravos, a origem da feijoada é européia, Aleijadinho é mais literatura do que história, Santos Dumont não inventou o avião e os militantes da luta armada não deveriam ser tão romantizados. Tudo isso e muito mais está no livro. O que foi mais interessante ou divertido de expor no Guia?

Gosto muito do capítulo dos índios e dos negros. Na verdade, ao mostrar que havia diversas personalidades indígenas e negras, o livro é até politicamente correto. Faz lembrar que negros e índios não eram imbecis: não ficavam só apanhando ou obedecendo; traçavam estratégias e tinham poder para negociar e agir, de acordo com os costumes de sua época. A conquista e a escravidão limitava esse poder, mas não por completo.

Leandro, com o livro você mostrou outras facetas de muitos heróis brasileiros. Quais são os seus heróis, nacionais e/ou internacionais?

Meu herói nacional é o dom Pedro II. Nenhum presidente foi tão humilde, honesto e prudente quanto ele. Lá fora, é o Churchill. Um primeiro-ministro que ganhou o Nobel de Literatura, imagine só.

O seu próximo livro é um guia sobre a América Latina, quais as “veias abertas” que você pretende atacar dessa vez?

Sobretudo os comunistas que arrasaram países e são considerados heróis como o Allende e o Che Guevara.

Um livro sobre o Brasil, outro sobre a América Latina, vem um guia mundial por aí? O que podemos esperar?

A ideia era fazer um guia do mundo, mas não sei. Talvez alguma coisa sobre economia… Mas vou pensar nisso daqui uns seis meses, quando terminarem minhas férias.

Atualmente, no Brasil, vivemos uma onda de “politicamente correto”. Como você, que é autor de títulos que falam em “politicamente incorreto”, vê essa situação?

Acho que as duas ondas acontecem ao mesmo tempo, o que é possível numa sociedade livre e diversa. Há uma tendência politicamente correta e natureba na maternidade, na gravidez (contra, por exemplo, fórmulas artificiais de leite para bebês), na arte. Ao mesmo tempo, a história, que já foi berço desse tipo de movimento, está se distanciando dele.

Tem uma piada que diz assim “governar o Brasil é como masturbação masculina: você pega com a esquerda, mas toca com a direita”. Qual a sua visão sobre os posicionamentos políticos no Brasil?

É exatamente isso. Tem outra piada boa: o Lula (ou a Dilma, o Deng Xiaoping e tantos outros) está no carro passeando pela cidade. O motorista de repente se vê numa encruzilhada perfeita. Pergunta ao Lula: para onde eu viro, direita ou esquerda? Lula responde: “dá sinal para a esquerda, mas vira à direita”.

Leandro, você defende que o capitalismo é o melhor caminho para os pobres. Dizer isso no Brasil é como falar que matou os próprios pais. Quais argumentos você usa pra defender essa sua opinião?

O capitalismo livre (sem monopólios, estatais e privilégios) estimula a concorrência e o aumento do poder de compra. Ganha mais recompensa quem oferece cada vez melhores serviços por um preço menor. Essa tendência, repetida durante séculos, faz com que um antibiótico, uma aspirina ou um telefone celular (coisas que eu jamais conseguiria fazer sozinho) serem acessíveis por preços muito baratos. Antes do capitalismo, valia o sangue, o título de nobreza, o sobrenome. Quem era mais nobre tinha mais direitos. Com o capitalismo, isso mudou. Passou a ganhar mais recompensas quem oferece mais do que os outros consideram bem-estar por menor preço. Antes do capitalismo chegar de verdade ao Brasil, os pobres (e muitos ricos) simplesmente morriam antes de completar 1 ano. Quando roupas e remédios baratos chegaram por aqui, paramos de morrer.  Em 100 anos, a população brasileira aumentou mais de dez vezes. E o mais incrível: a pobreza caiu de 70% da população para menos de 30%. Para acabar por completo, é preciso mais capitalismo.

A grande maioria de pessoas que se interessa por política já flertou com as idéias de esquerda. Tem até uma frase do Churchill que fala sobre isso. Isso aconteceu com você?

Ser de esquerda é uma fase inicial da atividade mental, hehehe. Nos deparamos com pobres de lado, ricos de outro e chegamos ao raciocínio simples porém errado: a pobreza existe por causa dos ricos. Na verdade, a pobreza existe por falta de ricos.

Leandro Narloch é jornalista formado pela Universidade Federal do Paraná (UFPR). Trabalhou na revista “Veja”, na “Superinteressante” e na “Aventuras na História”. Leandro é autor do “Guia politicamente incorreto da história do Brasil” (Leya, 2009) e Guia politicamente incorreto da América Latina (Leya, 2011).