CARNAVAL DE LETRAS

*Matéria publicada na revista Beija-Flor de Nilópolis – uma escola de vida

Por Felipe Lucena 

Para um país do porte do Brasil, com o protagonismo que tem na América do Sul e o destaque no restante do mundo, essa e outras colocações no quesito leitura são extremamente negativas. É preciso popularizar a literatura no Brasil. Este ano de 2017, a Beija-Flor de Nilópolis terá como enredo “A Virgem dos Lábios de Mel – Iracema”, inspirado no romance Iracema, de José de Alencar. A junção de carnaval, a festa mais popular do planeta, com uma obra literária pode colaborar em algum ponto para a disseminação do hábito de ler em terras tupiniquins.

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 Embora o mundo esteja mudando em alta velocidade e diversos conceitos, num piscar de olhos, passam a ser página virada, a ideia de que a leitura melhora as pessoas ainda é muito constante. Entre os comprovados benefícios do hábito de ler estão o estímulo à criatividade, o enriquecimento do mapa referencial, o fortalecimento da memória, o aumento da capacidade de reflexão, entre outros. Sim. Ler é muito importante.

“É possível que um analfabeto ou alguém que não tenha lido um livro na vida possa revelar uma sabedoria natural, um senso comum agudo e até uma grande carga de poesia. Conheci algumas pessoas assim na minha vida. Entretanto, o mais natural é que um país que não lê ou que aparece, como o Brasil, entre os piores leitores do mundo, esteja comprometendo seu desenvolvimento futuro – não apenas cultural, mas também econômico. Mais ainda, dificilmente entrará no rio da modernidade e do progresso um país não-leitor ao mesmo tempo que será refém dos poderes dominantes”, disse o jornalista e escritor Juan Arias em um texto no El País Brasil.

Em 2014, o Market Research World, respeitado instituto de pesquisa britânico, publicou o Índice de Cultura Mundial, ranking que se refere aos hábitos culturais dos países, entre eles a leitura. Nesta lista da Market Research World, que teve trinta nações analisadas, o Brasil apareceu em 27º, com médias de leitura que rondam menos da metade de tempo que dedicam na Índia, a população que mais lê em todo o planeta.

A Índia ocupa essa posição desde 2005. Os indianos dedicam aos livros, em média, 10 horas e 42 minutos semanais. Os seguintes três postos também são ocupados por países da Ásia: Tailândia, China e Filipinas. O quinto é o Egito. Posteriormente vem a nação europeia melhor colocada, a República Tcheca, seguida por Rússia, Suécia (empatada com a França), e depois Hungria – ao lado da Arábia Saudita. Sobre América Latina, o país mais leitor é a Venezuela, no 14º lugar. Depois vêm a Argentina, em 18º.

Para um país do porte do Brasil, com o protagonismo que tem na América do Sul e o destaque no restante do mundo, essa e outras colocações no quesito leitura são extremamente negativas. É preciso popularizar a literatura no Brasil. Este ano de 2017, a Beija-Flor de Nilópolis terá como enredo “A Virgem dos Lábios de Mel – Iracema”, inspirado no romance Iracema, de José de Alencar. A junção de carnaval, a festa mais popular do planeta, com uma obra literária pode colaborar em algum ponto para a disseminação do hábito de ler em terras tupiniquins.

Em maio do ano passado, foi divulgada uma pesquisa do Retratos da Leitura que apontava que 44% da população brasileira não lê e 30% nunca comprou um livro. O brasileiro lê apenas 4,96 livros por ano. Desses, 0,94 são indicados pela escola e 2,88 lidos por vontade própria.  Do total de livros lidos, 2,43 foram terminados e 2,53 lidos em partes e não finalizados.

Júlio Silveira, curador do evento literário “LER – Salão Carioca do Livro”, que aconteceu em novembro de 2016, no Pier Mauá, na Zona Portuária da cidade do Rio de Janeiro, aposta na força das feiras literárias e na potência agregadora da leitura:

“Acreditamos no poder do livro e quisemos reunir pessoas e histórias diferentes, para gerar novas ideias. Temos todo respeito e admiração pelos outros festivais literários, eles são muito importantes, mas na hora de conceber o LER, vimos que nossa diferença seria justamente abraçar as diferenças. Assim, procuramos todas as vozes: jovens, negros, geeks, índios, acadêmicos, blogueiros e muito mais. Tivemos um bom resultado”, afirma Júlio.

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Os números preocupantes não param. Um levantamento do Movimento Todos Pela Educação, realizado há sete anos, com base no Programa Internacional de Avaliação de Alunos (Pisa), analisou 65 países. O resultado foi que cerca de 40% dos estudantes brasileiros declararam possuir, no máximo, dez obras literárias. Somente 1,9% é dono de mais de 200 volumes. O estudo apontou que a baixa escolaridade do país e a situação socioeconômica ruim são os principais motivos. Considerando os recentes fracassos nos programas de educação e a situação econômica pouco positiva do Brasil, a tendência natural deste grave problema é não ter melhorado tanto ao longo dos últimos anos.

Jornalista e escritor, Xico Sá, é, acima de tudo, um leitor. Membro do projeto “Você É O Que Lê” (ao lado de Maria Ribeiro, Gregório Duvivier) que tem como intenção principal debater a literatura em todo o Brasil, Xico julga que o hábito de ler deve ser algo atrativo, não ser tratado como um alvo distante, inalcançável.

“Não temos uma crise da escrita no Brasil. A crise é de leitores, não de escritores. A literatura deve ser algo interessante, não ficar nessa de ser algo que só certas pessoas podem ter acesso. Assim, nós teremos mais gente lendo”, frisa o autor.

Um dos lados deste problema que é a falta de uma grande população leitora no Brasil é composto pelas editoras. Como é a situação de quem produz livro em nosso país?

“Em nossa visão, o futuro do mercado editorial é a venda de livros impressos sob demanda e eBooks por seus próprios autores, acabando com as intermediações. Esse foi o grande benefício que a internet trouxe que foi a possibilidade de contato direto entre o produtor do conteúdo e o consumidor sem intermediários, como aconteceu com o mercado fonográfico.  Sobre o autor, que é a peça mais importante dessa cadeia, precisa de mais valorização. No nosso modelo de negócio o autor define o quanto receberá na venda do livro impresso e na venda do eBook. Ele define o preço de venda e fica com quase 70% da receita da venda”, opina Antônio Hercules Junior, criador da Editora Perse, que trabalha com a publicação online  e impressa de novos autores.

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As livrarias também têm seu capítulo nesse drama. Como é sabido, a venda de livros no Brasil é inferior a de muitos países. Contudo, usando de novos artifícios, entre eles a venda online, essas empresas vão se mantendo no mercado. De acordo com o site Publishnews, os três livros mais vendidos em nosso país em 2016 são de seguimentos populares por aqui: literatura infanto-juvenil internacional, autoajuda e biografias. Os títulos são: Harry Potter e a criança amaldiçoada, J. K. Rowling (Rocco); O homem mais inteligente da história, Augusto Cury (Sextante); Rita Lee – uma autobiografia, Rita Lee (Globo Livros).

Os autores não poderiam ficar fora da narrativa. André Vianco, escritor brasileiro com uma história repleta de best selers, acredita que a literatura é fundamental para a sociedade e diz que a vida de escritor não é fácil, mas com esforço se consegue.

“Comecei a escrever há 16 anos e hoje vivo de literatura. Existem as dificuldades, principalmente no início, no entanto, é possível. Com dedicação e seguindo as ideias certas, é possível. Sobre o público, é evidente que nós, brasileiros, precisamos ler mais”, destaca André, que dá cursos para jovens escritores no site Vivendo de Inventar.

São muitas páginas da mesma história, mas o desfecho do enredo deve ser esse: precisamos incentivar, cada vez mais, independentemente dos meios, a leitura no Brasil. E o carnaval pode sim ser um instrumento para isso.


SAMBA-EXALTAÇÃO

História dessa modalidade de samba tão presente no carnaval carioca

Por Felipe Lucena 

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Há quem defenda que o momento mais emocionante de um desfile de uma escola de samba é o “esquenta”. Opiniões e exageros à parte é nessa hora que normalmente os sambas exaltação das agremiações são entoados e de fato é ali que a comunidade mostra sua força antes de pisar definitivamente na avenida.

Quando, no final dos anos 1920, as escolas de samba se organizaram como agremiações, o sentimento de rivalidade e paixão que já existia nas disputas anteriores de blocos, ranchos e cordões se avolumou. Com isso, letras que exaltavam o amor às escolas de samba passaram a fazer um sentido maior para as pessoas que estavam envolvidas nesses ambientes. Essa ideia se esticou pelas décadas e se mantém firme até hoje em dia. É comum notar nas quadras e barracões, torcedores das agremiações do Carnaval cantando seus hinos (os sambas de exaltação) como se estivessem em um estádio de futebol assistindo a uma final diante do maior rival.

A nomenclatura “samba-exaltação” surgiu em 1939. No entanto, a ideia de sambas que faziam menções honrosas a algo já existia desde o início da década de 1930, quando Getúlio Vargas se tornou presidente da República. Nesse período, os compositores passaram a escrever letras que exaltavam o Brasil e o governo. Também em 1939, Vargas criou o Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP). Até então, o samba era voltado à malandragem. A partir daí, o governo investiu no uso da música como veículo de sua ideologia, principalmente de entusiasmo ao trabalho, chegando a distribuir verba para as
escolas de samba para que abordassem temas de cunho patriótico em seus desfiles. Um dos maiores representantes desse gênero foi o compositor Ary Barroso, que fez, em 1939, “Aquarela do Brasil”, considerado o primeiro samba-exaltação da história. Ary chegou a ser acusado de ter aceitado uma encomenda de Getúlio Vargas, devido a grande coincidência do conteúdo da música com o contexto vivido no momento. Barroso, que em meados dos anos 1940 chegou a ser eleito vereador do Rio de Janeiro pela UDN (União Democrática Nacional), que na época era oposição ao PTB de Vargas, se defendia dessa argumentação alegando que foi pura coincidência, que não escreveu nada a mando de ninguém.

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De todos os sambas e marchinhas ufanistas, uma canção se destacou. A escola de samba Deixa Falar, conhecida como a primeira do Brasil, desfilou em 1932 – ano que marcou o início do Carnaval com disputa de título entre as agremiações – com o enredo “A Primavera e a Revolução de Outubro”, uma clara homenagem a chegada de Vargas ao poder dois anos antes. Do samba que exaltava o país para o samba que exalta as escolas foi um caminho reto. O historiador Claudio Russo, um dos pesquisadores da Comissão de Carnaval da Beija-Flor, diz como se deu esse processo: “Precisar exatamente a época e qual escola de samba começou é uma tarefa um tanto quanto difícil, mas podemos dizer que por muito tempo o samba-exaltação foi uma prática extremamente utilizada pelos compositores das escolas. Temos para posteridade grandes sambas como as composições de Candeia, Chico Santana e Paulinho da Viola,
na Portela; Silas de Oliveira e Mano Décio, na Império Serrano, que nos deixaram tantas obras magnificas. Na Academia do Salgueiro, Geraldo Babão e Djalma cantarolavam seus sambas com a beleza de um Sabiá – desculpe o trocadilho. Na Estação Primeira, Cartola afirmava: ‘Muito velho, pobre velho vem subindo a ladeira com bengala na mão é o velho, velho Estácio. Vem visitar a Mangueira’… Isto nas quatro grandes escolas do passado. Se for me estender um pouco mais, em verde e branco ecoa a Rainha de Ramos, a Mocidade! Mas tenho certeza que a Beija-Flor está muito bem representada com ‘A Deusa da Passarela’, do Neguinho”.

Claudio ainda pontua que é preciso que haja uma mobilização para que diversos subgêneros do samba não se tornem apenas uma saudosa lembrança. “Acredito que a escola de samba deve ter muito mais que apenas o concurso de samba-enredo. Poderíamos semear este solo tão fértil de valores e talentos com festivais de sambas de quadra, de terreiro e principalmente sambas de exaltação nas tardes de sábado ou domingo, para que assim possamos fortificar e preservar as raízes do samba, o amor ao pavilhão e a história para as novas gerações”, disse o historiador.

Monarco, um dos maiores nomes da história do samba e do carnaval, afirma com veemência a importância que o samba-exaltação tem para uma escola: “É mais importante que o samba-enredo. É um samba que sai do coração. O samba enredo é encomendando, vem de fora. O samba-exaltação vem de dentro. Óbvio que os dois são importantes, o de enredo e o de exaltação. Mas o de exaltação tem esse algo a mais, essa coisa de reforçar o amor à escola de samba. O samba-exaltação é uma coisa que não deve morrer” conta ele, que está na ala dos compositores da Portela desde 1950.

Outro baluarte do carnaval, Nelson Sargento, depois de frisar que os sambas exaltação são extremamente necessários para a manutenção da alma da festa, apontou seus prediletos: “Gosto dos que o Silas de Oliveira fez para a Império. Os do Salgueiro são ótimos. A Beija-Flor tem uns muito bonitos também”.

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O samba-exaltação é o refrão que levanta o bloco. Anizio Abrão David, presidente de honra da Beija-Flor, uma agremiação oriunda de uma comunidade que praticamente respira carnaval, sabe bem do peso dessas composições: “A gente nota que quando esses sambas são tocados, vez, ele, que faleceu anos atrás, declarou que lamentava o fato de os sambas exaltação não terem mais tanta força quanto já tiveram em outros carnavais e apontou suas letras favoritas desse estilo: “A Deusa da Passarela”, de Neguinho da Beija-Flor e “Eu sou de Nilópolis”, escrita por Osório Lima, um aclamado compositor.

Quando se fala em samba-exaltação e em Beija-Flor, inevitavelmente se pensa em Neguinho e “A Deusa da Passarela”. O interprete e compositor da Azul e Branco de Nilópolis lembra como foi fazer essa canção: “Eu estava esperando uma ligação na casa da dona Iolanda, onde o Joãozinho Trinta também morava. Era um domingo, em 1979. Aí o Joãozinho me perguntou o que eu achava de ele fazer um concurso para que criassem sambas que exaltassem a Beija-Flor. Eu elogiei a ideia. Logo em seguida, ele saiu, foi na rua resolver algum assunto rápido. E isso ficou na minha cabeça. Na mesma hora escrevi a letra de ‘A Deusa da Passarela’. Quando ele voltou, mostrei para ele. Ele ficou emocionado demais e muito surpreso por eu ter feito a letra tão depressa. Então, ele me disse que não precisava mais de concurso nenhum, que o que ele queria era exatamente o que eu havia acabado de escrever”.

O assessor jurídico da Liesa, Ubiratan Guedes, também é um entusiasta dessa modalidade de samba. Ele reforça a atmosfera que cerca essas composições: “O samba-exaltação é aquilo que para a escola é o equivalente ao hino do time de futebol. É um hino que funciona como um chamado geral, que desperta a emoção da comunidade, que busca no interior de cada componente a força para se fazer um grande carnaval, ultrapassando, muitas vezes, limitações da agremiação. O ‘esquenta’, que realmente esquenta a emoção das pessoas, é fundamental. Se eu pudesse escolher entre um samba de anos anteriores ou um samba de exaltação, eu sempre escolheria o samba-exaltação, de esquenta, porque esse mexe com a sensibilidade mesmo. Todo mundo canta, todo mundo participa e a comunidade se inspira, fica mais energizada para desfilar” enfatiza o advogado.


RIO DE JANEIRO: CIDADE CARNAVAL

Por Felipe Lucena

Rio de Janeiro e carnaval se confundem e se completam. A relação da Cidade Maravilhosa com esta festa popular vai muito além do que se imagina. Os dias de folia não estão só atrelados ao turismo, mas também a economia, ao urbanismo, a estrutura social, e até a história da cidade que já foi capital do Brasil. Nesses 450 anos do Rio, o parabéns deveria ser cantado em ritmo de samba-enredo. Ou em marchinha.

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Crédito foto: Google

O carnaval é uma data que norteia o presente e o futuro dos cariocas. É comum se pensar viagens e outros planos para depois da festa popular. “Quando o carnaval acabar começo a dieta e arrumo uma namorada”. No entanto, pouco se fala sobre a constante presença dessa festa no passado em alguns dos fatos históricos mais marcantes da Cidade Maravilhosa.

No ano de 1840, a alta sociedade carioca começou a realizar bailes de carnaval no Rio de Janeiro. Inspirados nas festas que aconteciam na Europa, os encontros eram regados a muita bebida, comida e ritmos tipicamente europeus, como a valsa e a quadrilha. Enquanto isso, nas ruas da cidade, milhares de foliões brincavam o entrudo – festa portuguesa em que pessoas fantasiadas dançam e jogam limões de cheiro, farinha ou água uns nos outros. Nesse período, a família real estava no Rio há 32 anos e a desigualdade social, a escravidão e outras mazelas ainda eram extremamente presentes na cidade. O carnaval começava a tentar reverter essa opressora realidade, pois muitos nobres iam para a rua festejar com o povo.

Os primeiros registros de blocos carnavalescos licenciados pela polícia no Rio de Janeiro datam o ano de 1889. Os blocos eram: Grupo Carnavalesco São Cristóvão, Bumba meu Boi, Estrela da Mocidade, Corações de Ouro, Recreio dos Inocentes, Um Grupo de Máscaras, Novo Clube Terpsícoro, Guarani, Piratas do Amor, Bondengó, Zé Pereira, Lanceiros, Guaranis da Cidade Nova, Prazer da Providência, Teimosos do Catete, Prazer do Livramento, Filhos de Satã e Crianças de Família. Isso se deu um ano após a abolição da escravatura. Muitos historiadores apontam os blocos de rua como um sinal de liberdade. Nesse caso, tudo foi bastante simbólico, porque os negros recém-libertos foram às ruas para festejar com as pessoas que compunham esses eventos pela cidade do Rio de Janeiro.

“É necessário lembrar que o carnaval, para uma parte dos cariocas, sempre teve a dimensão de ser um tempo de subversão da cidadania roubada. Inventamos na rua a cidade negada nos gabinetes poderosos, sobretudo no contexto de transição entre o trabalho escravo e o trabalho livre, nos últimos anos da monarquia e nos primeiros da república, quando a festa ganhou contornos populares mais contundentes e uma parte significativa dela passou a ser um canal de expressão de descendentes de escravos. A partir daí a festa confunde-se com a própria história da cidade, como é até os dias atuais. Entrudos, corsos, batalhas de confetes e flores, blocos de arenga, rodas de pernada, ranchos, cordões, grandes sociedades, bailes de mascarados, escolas de samba, onças do Catumbi e caciques de Ramos, simpatias e suvacos balzaquianos, bate-bolas suburbanos e centenárias bolas pretas, dão pistas para se entender como as tensões sociais – disfarçadas ou exacerbadas em festas – bordam as histórias desse terreiro de São Sebastião/Oxossi” pontua o historiador Luiz Antonio Simas, que atualmente é consultor da área de carnaval do Museu da Imagem e do Som (MIS) do Rio de Janeiro.

No final dos anos 1920 e no começo da década de 1930, as escolas de samba começaram a se organizar como agremiações, deixando para trás o passado, quando se pareciam mais com os blocos de carnaval de hoje em dia. Esse período coincidiu com a chegada de Getúlio Vargas ao poder. Getúlio, já estabelecido no Palácio do Catete, no Rio de Janeiro, – antiga sede do governo federal – buscou na Itália de Benito Mussolini a inspiração para a nossa festa. Nessa época, a folia italiana era mais organizada, com pessoas marchando em linha reta, instrumentos que faziam parte da cultura nacional, músicas que edificavam o país e notas de zero a dez no final das apresentações. Vargas, que buscava uma imagem mais próxima da cultura popular, abraçou a ideia do italiano e tudo isso ganhou uma pitada de Brasil. Em 1935, o governo brasileiro passou ajudar financeiramente para que as escolas tivessem mais recursos na hora de desfilar. Dois anos depois, foi instituído que os sambas-enredos deveriam homenagear a história do país. Com algumas mudanças, muitos dos elementos incorporados ao carnaval na Era Vargas estão presentes atualmente: “O Estado varguista buscava disciplinar as manifestações das camadas populares, com o objetivo de controlá-las. Os negros, por sua vez, buscavam trilhar caminhos de aceitação social. As escolas de samba surgiram como resultados dessa realidade, em que o interesse regulador do Estado vai ao encontro do desejo de aceitação das camadas populares. Dessa tensão e dessas intenções as escolas de samba se cristalizam como agremiações típicas do carnaval carioca” informa, Luiz Antonio.

Além da história da cidade, o carnaval está embrenhado na vida das pessoas que residem no Rio de Janeiro. No ponto de vista antropológico é possível dizer que o carnaval ajuda a formar a personalidade coletiva do povo carioca. Há quem defenda que quem nasce no Rio de Janeiro é mesmo uma festa democrática e solidária, mas embalada por tristes contradições.

“O carnaval é uma festa nacional que contribui muito para a formação do carioca, do brasileiro. É uma festa importantíssima para o processo de crescimento desse povo. O povo brasileiro e o carnaval seguem crescendo juntos” diz o antropólogo Roberto da Matta, que frisa que esse assunto renderia um livro.

Um dos pontos dessa roupagem que a festa popular proporciona ao povo carioca é a questão dos conflitos socioeconômicos. Durante os dias de folia, enquanto os blocos e escolas de samba passam, as pessoas de todas as classes sociais se misturam. “O carnaval é a festa das classes economicamente menos favorecidas, para usar esse termo que não é bom. Ele tem uma moldura francesa, vinda dos bailes de máscaras, mas no Brasil é uma festa popular. Do povo mesmo. Um senhor, nos anos 1970, acho que na Mangueira, quando eu estava colhendo um material de pesquisa sobre o carnaval, me disse: ‘O carnaval é uma festa que ajuda a nos tirar da tristeza. Que nos dá alegria depois de um ano de sofrimento’.  O carnaval é uma transformação. Uma inversão. As celebridades, que as pessoas assistem o ano todo, ficam nos camarotes assistindo essas pessoas desfilarem. O carnaval é de todo mundo, todos participam. Por isso essa paixão” comenta Roberto, que emenda em seguida:

“O carnaval continua sendo um enigma: um grupo de pessoas que sofre ano inteiro, por uma série de motivos, realizar uma festa tão grandiosa é algo fantástico.  Supõem que o povo brasileiro é desorganizado, mas durante o carnaval conseguimos fazer uma festa extremamente organizada, capaz de encantar o mundo tudo.  Encantar, inclusive, pessoas de países que funcionam melhor que o nosso.”

Mexe na história, mexe na vida dos cariocas e mexe na paisagem da Cidade Maravilhosa. O carnaval não para. De acordo com o estudo “Rio de Janeiro, 1850-1930: A Cidade e seu Carnaval”, do pesquisador Luiz Felipe Ferreira, o Rio sofreu profundas alterações físicas catapultadas pelo carnaval. E vice e versa:

 “As modificações sofridas pelo carnaval carioca durante a segunda metade do século XIX e início do século XX estão estreitamente relacionadas com as transformações urbanas pelas quais passou o centro da cidade no período. De 1850 a 1930, o Rio de Janeiro deixa de ser uma acanhada cidade de feições coloniais para refletir, em seu espaço urbano, sua condição de capital de um país integrado à economia capitalista global. Refletindo esta nova realidade, o carnaval carioca irá buscar, nos modelos parisienses, uma expressão que reflita os ideais burgueses de refinamento e integração com o mundo. Mas as novas ruas e praças do Rio de Janeiro, feitas para o flanar burguês, irão acolher, e mesmo impulsionar, um novo carnaval, de cunho popular, que se impõe. Os bailes, as mascaradas e os desfiles de alegorias da burguesia irão, no período carnavalesco, dividir as ruas do centro carioca com os cordões, os blocos, os cucumbis e os ranchos de acento eminentemente popular. Esta verdadeira batalha pelo domínio das ruas da região central do Rio de Janeiro e as mútuas influências sofridas por estes diferentes “carnavais” irão propiciar o surgimento de uma forma nova e singular de carnaval que, em alguns anos, definiu internacionalmente não somente a cidade do Rio de Janeiro, mas também todo o país.”

Provavelmente, se essa relação entre as ruas do Rio de Janeiro e o carnaval não fosse tão intensa, hoje em dia, ao andar pelo Centro da cidade, caminharíamos por um lugar com uma paisagem urbana bem diferente da atual.

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Economicamente o carnaval do Rio de Janeiro é um sucesso. Dentro e fora da Sapucaí. Segundo dados do estudo “A Economia Criativa do Carnaval”, de Luiz Carlos Prestes Filho, no ano de 2000, a festa gerou receita de R$ 416,1 milhões, atraindo uma média de 310 mil turistas. No ano de 2006, com a mesma média de 310 mil turistas, o carnaval movimentou R$ 665 milhões. Em 2012, o carnaval atraiu para o Rio de Janeiro 850 mil turistas, gerando o movimento de R$ 1.100 bilhão. Os números só aumentam. No Sambódromo, a arrecadação de bilheteria regularmente atinge R$ 63 milhões em apenas dois dias, com a venda de 70 mil ingressos para o desfile das escolas de samba do grupo especial. Nesta última década os dias de folia geraram todos os anos 264,5 mil postos de trabalho, para a execução de 470,3 mil tarefas. No ano de 2014, a Associação Brasileira dos Shoppings previu a contratação de 260 mil trabalhadores temporários para o Natal. O carnaval gera mais empregos que o Natal. Considerando que o desemprego é um temor para qualquer sistema econômico, o carnaval ganha ainda mais importância no real cenário carioca.

Um desses empregos que ganham destaque durante o carnaval é o de bordadeira. Uma profissão que em uma parte do ano passa despercebida ganha holofotes quando a festa popular se aproxima. As bordadeiras de Barra Mansa, sul do estado do Rio de Janeiro, sabem bem disso. O grupo de mais ou menos 40 pessoas recebe um número acima da média de trabalho encomendado pelas escolas de samba do Rio. Esses pedidos começam a chegar a partir de agosto, ou seja, mais de seis meses antes da folia começar.

Em média, essas pessoas ganham cerca de um salário mínimo por mês para bordar fantasias e bandeiras das escolas. Parece pouco, mas para muitos deles é a única renda certa no ano, já que como bordadores e bordadeiras dependem das cada vez mais escassas encomendas.  Eduardo Marques, de 23 anos, que é secretário da prefeitura de Barra Mansa e bordador de carnaval há dez anos, tem nesse trabalho uma possibilidade de ganhar “um extra”. Dinheiro que usa para pagar o curso de direito que está fazendo.

“Uma intermediara entra em contato com as escolas, depois ela passa o trabalho para nós. Nós recebemos pela nossa mão de obra. Eu tenho emprego fixo na prefeitura, para mim é um extra, mas que me ajuda bastante com meus estudos. Para muitas pessoas que fazem esse trabalho, muitas vezes, é o único dinheiro que recebem. Muita gente precisa mesmo disso, porque não é mais tão comum contratarem bordadeira ou bordador. O trabalho para o carnaval aumenta sempre. A cada ano tem mais coisa para fazer. Esse ano estamos fazendo bordados em geral para Mangueira, Viradouro, Imperatriz e União da Ilha. Já fizemos para a Beija-Flor em outras épocas, também” diz Eduardo que aprendeu a bordar com a irmã mais velha e a tia, quando ele ainda era um adolescente.

O trabalho das bordadeiras de Barra Mansa existe há mais de 30 anos e já foi citado em diversos estudos que falam sobre carnaval. O mais marcante deles foi o livro “Artesãos da Sapucaí”, de Carlos Feijó e André Nazareth. A obra também retrata o trabalho de diretores de carnaval, pesquisadores, carpinteiros, aramistas, bordadeiras, peruqueiras, chapeleiros, iluminadores e coreógrafos, divididos em categorias de base, construção, ornamento e finalização.

Carlos Lessa, ex-presidente do BNDS (Banco Nacional do Desenvolvimento Social) ressalta a força econômica do carnaval, mas faz uma ressalva quanto à elitização da festa: “Há anúncios na Alemanha para vender lugar nas alas do carnaval carioca. Isso modificou a festa, pois aumentou as cores e diminui o balanço. Muita gente que pode pagar não sabe dançar. Para suprir isso, as fantasias estão cada vez mais enfeitadas e coloridas. As bordadeiras de Barra Mansa, que fazem um grande trabalho, ganham com isso. Entretendo, o povão, de modo geral, está ficando de fora das grandes escolas de samba. Com isso, eles vão migrando para escolas menores ou para os blocos de rua. Os desfiles das grandes escolas geram mais dinheiro que os blocos. Mas os blocos colocaram de volta o povo na festa. No ponto de vista econômico, os blocos de rua não são tão fortes. Nem tão organizados. Eles são interessantes por esse motivo de colocar as populações mais carentes na festa outra vez. A Beija-Flor faz com que Nilópolis, um município carente, que vive a atmosfera de uma grande escola, mas isso não é mais tão comum nas grandes agremiações. No entanto, no sentindo econômico, as escolas grandes ainda são importantes para o povo, principalmente devido à geração de empregos. O Bola Preta pode fazer o mesmo pela cidade do Rio de Janeiro, mas ainda não faz” diz o economista, que fundou um bloco carnavalesco, o “Minerva Assanhada”.

Uma grande escola de carnaval, no auge dos trabalhos, emprega cerca de 300 pessoas. A economia gira quando uma escola de samba compra materiais para construir um carro alegórico. Um turista que deixa sua cidade, ou país, e se hospeda em um hotel para acompanhar os desfiles ou participar dos blocos, também participa do processo desse giro econômico. Quando um vendedor ambulante reforça seu estoque para suportar a elevação na demanda, quando grandes empresas montam camarotes na avenida para receber seus convidados e quando outros setores da sociedade se envolvem nos quatro dias de folia nota-se a cadeia produtiva do carnaval, que alavanca esse verdadeiro fenômeno econômico. Apesar de haver alguma discordância, para muitos analistas essa é a data comemorativa mais lucrativa do Brasil, superando – além do Natal – a Páscoa, o Dia das Mães, dos Pais, das Crianças e o Réveillon.

Como era de se esperar, no período de folia, a demanda por serviços de turismo cresce vertiginosamente. De acordo com o Ministério do Turismo, o carnaval 2013 (um dos anos mais marcantes nesse quesito) gerou 6,2 milhões de viagens dentro do país, alcançando uma movimentação financeira de R$ 5,7 bilhões, algo em torno de 2,5% a 3% do faturamento previsto para o setor naquele ano. Só o Rio de Janeiro recebeu 900 mil turistas entre brasileiros e estrangeiros.

Um levantamento feito pela Riotur em parceria com a secretaria de Desenvolvimento Econômico do Estado aponta que em 2014, o carnaval movimentou cerca de R$ 2,270 bilhões, dos quais aproximadamente R$ 1,790 bilhão foram provenientes do turismo. O restante foi oriundo dos investimentos das escolas de samba, eventos paralelos, decoração e organização de blocos de rua. Em 2014 foram 920 mil turistas no Rio de Janeiro. A expectativa para 2015 é de que todos esses números subam ainda mais.

Embora o sucesso turístico do carnaval seja evidente, o Ministério do Turismo tem planos ainda mais ambiciosos. Em 2013 foi realizada em Brasília uma reunião, na qual estavam presentes membros da Assembleia Legislativa, Liga Independente das Escolas de Samba e da Associação Independente dos Blocos de Carnaval de Rua da Zona Sul do Rio de Janeiro, para discutir formas de fazer com que o Carnaval se torne um produto turístico capaz de encantar turistas e gerar emprego e renda durante todo o ano para as comunidades envolvidas com a festa.

Uma das propostas discutidas nesse encontro foi a possibilidade da criação de uma escola de carnaval voltada para a preservação cultural e a formação e qualificação de mão-de-obra em profissões relacionadas à festa, como guias de turismo, por exemplo.

“Rio de Janeiro sem carnaval é aniversário sem parabéns: pode até acontecer, mas não seria tão bom” afirma Douglas Vieira, folião que costuma desfilar em diversas escolas de samba do grupo especial e da série A.


MALANDRAGEM NA CABEÇA

Por Felipe Lucena 

Adorado ou odiado, legal ou ilegal, certo ou errado, malandro que se preze tem uma peça de roupa única em seu armário. Alheio ao que se pensa a seu respeito, esse personagem da cultura popular brasileira sempre leva em cima da cabeça o bom e velho chapéu Panamá.

Essa relação malandro e chapéu surgiu na primeira metade do século XX quando, além desse lendário assessório, a clássica malandragem, que vivia perambulando pelas ruas dos ensolarados grandes centros do Brasil (principalmente Rio de Janeiro), trajava camisas listradas e calças e sapatos brancos. 

Historicamente, os malandros vivem de pequenos golpes e não acreditam no trabalho como um modo de vida confiável. Em contrapartida, são sujeitos sensíveis e sentimentais, galantes, cavalheiros e invejáveis amantes.

A malandragem é descrita no imaginário popular brasileiro como uma ferramenta de justiça individual, embora os malandros, muitas vezes, sejam chamados de “vagabundos”. Perante a força das instituições opressoras, o malandro se vira como pode. A malandragem é um recurso de esperteza utilizado por indivíduos de pouca influência social, ou socialmente desfavorecidos. Por conta disso esse comportamento muitas vezes é visto com simpatia. Ao malandro cabe muitas vezes o papel de herói, ainda que se aproxime mais de um anti-herói.

 

DUELO DE “FERAS”

Boêmio e frequentador assíduo de rodas de samba, o malandro foi diversas vezes imortalizado em canções.  Uma dessas músicas mais simbólicas é “Lenço no Pescoço”, escrita por Wilson Batista e gravada por Sílvio Caldas, em 1933. Nos versos, Wilson descreveu o comportamento da malandragem em frases como “Meu chapéu do lado / Tamanco arrastando / Lenço no pescoço / Navalha no bolso / Eu passo gingando / Provoco e desafio / Eu tenho orgulho / Em ser tão vadio. / Sei que eles falam / Deste meu proceder / Eu vejo quem trabalha / Andar no ‘miserê’ / Eu sou vadio / Porque tive inclinação / Eu me lembro, era criança / Tirava samba-canção”.

Dando uma de “caxias” – sujeito trabalhador e “certinho”, o aparente oposto do malandro -, Noel Rosa escreveu “Rapaz Folgado”, em resposta ao samba de Wilson: “Deixa de arrastar o teu tamanco/Pois tamanco nunca foi sandália/E tira do pescoço o lenço branco/Compra sapato e gravata/Joga fora esta navalha que te atrapalha/Com chapéu do lado deste rata/Da polícia quero que escapes/Fazendo um samba-canção/Já te dei papel e lápis/Arranja um amor e um violão”.

 

SINAL DOS TEMPOS

Apesar de toda a história da malandragem, atualmente não é tão comum ver um malandro trajado de forma clássica, com camisas com listras, calças e sapatos brancos e, é claro, chapéu Panamá. Exceto no carnaval, quando até o mais caxias dos homens quer viver quatro dias de malandro. De acordo com Vanuza, gerente da loja Chapelaria do Porto, especializada em chapéus, nessa época do ano cerca de 100 Panamás são vendidos por dia. “É uma peça que vende muito um pouco antes e durante os dias de folia. Lucramos bastante com isso, as vendas sobem cerca de 80% nesse período. É engraçado que todo tipo de gente compra, homens, mulheres, crianças, todos usam o chapéu Panamá”, disse a gerente.

Há também uma relação entre os malandros clássicos de chapéus e os jogos de azar. Bons no carteado, nos dados e no jogo, no Brasil muitos membros da malandragem fizeram riqueza com essas práticas. Esses indivíduos praticaram caridade e investiram parte dos seus ganhos em diversas atividades culturais, como no samba, o que lhes conferiu uma imagem romântica de benfeitores e defensores dos mais pobres.

 

MADE IN BRAZIL    

Extremamente popular, o assessório indispensável do malandro brasileiro foi gravado também no mundo dos desenhos. Zé Carioca, personagem criado por Walt Disney na década de 1940, se veste como a clássica malandragem e não larga seu pandeiro, tampouco tira seu chapéu Panamá da cabeça.

O chapéu também se faz presente nas religiões. Zé Pelintra, personagem folclórico e espiritual das mitologias afro-brasileiras e regionais da umbanda e do catimbó, sempre é representado com o Panamá na cabeça e trajando roupas de malandro.

Uma contradição histórica é o fato de o ex-presidente brasileiro Getúlio Vargas gostar de usar chapéu Panamá. Lembrado pelas leis em prol dos trabalhadores e por ter sido um estadista de pulso firme, Getúlio estava bem longe dos malandros que corriam do trabalho para marcar presença em uma boa roda de samba. 

Santos Dumont foi outro brasileiro conhecido, e que não tinha nada de malandro, mas que costumava aparecer com um Panamá na cabeça. Em quase todas as fotos históricas do inventor do 14 Bis lá está ele, com o chapéu como indispensável assessório.

Apesar de seu nome, o chapéu Panamá é fabricado no Equador e é conhecido por lá como “El fino”. O apelido que virou nome se deu em 1906 quando, em visita ao Panamá, Theodore Roosevelt, presidente dos Estados Unidos na época, desfilou pelo famoso canal panamense utilizando o chapéu em questão. Em razão deste episódio o assessório passou a ser denominado com a atual alcunha.

Com ou sem a clássica malandragem, no Brasil, no Equador ou no Panamá, o mais importante é que as tradições da cultura nacional não saiam nunca de nossas memórias, ou cabeças, como o chapéu Panamá.


PRIMEIRO LP DE SAMBA FAZ 46 ANOS

*Publicada na Revista da Beija-Flor de Nilópolis                                                                                                                                                                   Por Felipe Lucena

Hoje em dia, já no fim do ano anterior ao desfile das escolas, temos em mãos o CD ou o MP3 com as gravações dos sambas enredos. No entanto, décadas atrás, essa facilidade não existia. A história começou a mudar há 46 anos, em 1968, quando foi gravado o “Festival de Samba”, o primeiro disco com os sambas de enredo (assim eram chamados) do carnaval daquele ano. Anteriormente, cada agremiação gravava suas músicas separadamente, como podia.

Incomodada com a desvalorização do samba em uma época repleta de festivais musicais nas rádios e TVs do Brasil, a gravadora Discnews Relevo RV-201 com o auxilio do agitador cultural Albino Pinheiro – um grande defensor das manifestações populares no Rio de Janeiro, criador do bloco Banda de Ipanema – lançou o LP com os sambas de 1968, que foram gravados ao vivo nos terreiros – antigas quadras das escolas.

Albino escreveu o encarte do disco, que além do texto em português tem uma versão em espanhol e inglês (uma tática da gravadora para deixar o trabalho mais abrangente). Nesse texto, o agitador cultural reforça que os sambas enredo são como hinos – que se renovam a cada ano – para as escolas, por isso a importância de registrá-los em conjunto.

Mas nem tudo é interesse em cultura. No ano anterior, o samba-enredo da Mangueira “O mundo encantado de Monteiro Lobato”, que havia dado a escola verde e rosa o título do carnaval de 1967, ganhou as rádios, na voz de Eliana Pittman, se tornando um sucesso nacional. Esse fato fez os executivos da Discnews enxergarem um potencial comercial naquele estilo musical, que ainda era marginalizado.

No mesmo ano, o Museu da Imagem e do Som (MIS) também lançou um disco com os sambas de enredo de 1968, porém, com um diferencial. A Discnews decidiu gravar o LP com sete sambas: Dona Beja, Feiticeira de Araxá – SalgueiroSublime Pergaminho – Unidos de LucasViagem Pitoresca Através do Brasil – Mocidade IndependentePernambuco: “O Leão do Norte” – Império SerranoTronco do Ipê – PortelaSamba, Festa de um Povo – MangueiraQuatro Séculos de Modas e Costumes – Unidos de Vila Isabel. O trabalho feito pelo MIS conta com essas músicas citadas, além de: Uma Visita ao Museu Imperial – Unidos do São CarlosAspecto do Rio e Vida Carioca no século XVIII – Independente do Leblon e Homenagem a Portinari – Império da Tijuca.

O encarte desse disco, escrito por Aroldo Bonifácio, além de elogiar particularidades de cada escola, como “a batuta de André” mestre de bateria da Mocidade, “os violões de Cartola e Dercy”, se referindo à Mangueira e a “harmonia de conjunto” da Vila Isabel, frisa que “os ritmos e as cores” das agremiações falam por si só, dispensando comentários mais prolixos e mostrando a necessidade de uma gravação que ficasse para a posteridade, visando até um futuro museu do carnaval.

Entretanto, a ideia de ter um samba enredo só foi possível porque no início da década de 1930 tornou-se obrigatório que as escolas apresentassem um tema para o desfile. Antes disso, as agremiações mais pareciam com o que conhecemos como blocos de rua, hoje em dia.

 


EDITORA DO ‘FAÇA VOCÊ MESMO’

Antonio Hercules comanda a Perse (Crédito da foto: internet)

Antonio Hercules comanda a Perse (Crédito da foto: internet)

Por Felipe Lucena

Sabem a ideia de que você,  antes de morrer, precisa plantar uma árvore, ter um filho e escrever um livro? A Perse, uma editora paulista, facilitou essa missão. Na inovadora filosofia da marca, encabeçada por Antonio Hercules Junior, de 52 anos, o autor é quem faz sozinho a publicação do próprio livro. Basta o escritor postar um miolo revisado e diagramado no site (http://www.perse.com.br ), após um simples cadastro, e o trabalho já fica à venda na internet.

Antonio Hercules, que verá sua editora participar pela primeira vez na Bienal do Rio de Janeiro ( no Rio Centro, em agosto e setembro deste ano), contou que a ideia da Perse nasceu após uma analise em relação ao mercado literário nacional e internacional.

– Observamos a movimentação que estava acontecendo fora do Brasil com as varias plataformas OnLine de publicação (como LuLu, Blurb, Bubok) e também no Brasil com o surgimento de gráficas que começaram a operar com impressão digital e produção sob demanda a partir de um exemplar – disse.

Em entrevista ao OCULTO, Antonio, experiente no ramo editorial, com mais de 20 anos de carreira só no grupo Estado, em São Paulo,  falou sobre o futuro do livro impresso, novas editoras e a situação financeira de quem vive de literatura no Brasil.

Você comanda a editora sozinho ou têm mais pessoas na equipe?  O comando da PerSe é meu, mas temos uma excelente equipe de Funcionários e terceiros que trabalham conosco e dividem esse comando e operação comigo.

Sempre trabalhou no ramo literário?  No ramo literário não, mas no ramo editorial sim, pois trabalhei por 22 anos no Grupo Estado passando por várias áreas (Financeiro, Gráfica Comercial, Gráfica dos Jornais, Circulação dos Jornais, Promoções para os Jornais e Audiências e Marketing de todas as unidades de Negocio do Grupo) e quando saí do Grupo era Responsável pela Circulação dos Jornais e Audiências dos Portais e também pelo Marketing de todas as Unidades de Negocio do Grupo. Em determinado momento dessa minha história, fui o responsável pelas promoções de agregados dos jornais, onde chagamos a ter três/quatro promoções (na maioria das vezes de produtos editoriais) simultâneas em cada um dos dois jornais do Grupo (Estadão e JT).

Vive só da editora ou tem outras atividades?  Há um ano e meio trabalho, exclusivamente na PerSe.

Dá para ganhar dinheiro com literatura no Brasil? Ainda estamos na fase de investimentos na PerSe, é verdade bem próximos do Ponto de Equilíbrio que prevemos alcançar no final deste ano, mas acredito que esse negócio tem sim potencial de gerar resultados positivos. Em nossa visão, esse é o futuro do mercado editorial, a venda de Livros Impressos sob demanda e eBooks por seus próprios autores, acabando com as intermediações. Esse foi o grande benefício que a internet trouxe que foi a possibilidade de contato direto entre o Produtor do Conteúdo e o Consumidor sem intermediários, como aconteceu com o mercado fonográfico. Obviamente que os Players do mercado editorial analisaram o que houve com o mercado fonográfico e estão tentando não cometer os mesmos erros, mas a minha experiencia no mercado de jornais (especialmente no mercado de classificados) onde os jornais não conseguiram defender suas posições no segmento de classificados pois sempre atuaram no mercado de Classificados OnLine de forma defensiva procurando defender seus negócios do Classificado Papel e aí surgiram os Pure Players de Classificados online (Web Motors, Imovel Web, Catho, etc.) e hoje dominam esse seguimento e os jornais perdem cada dia mais espaço. E não tenho duvida de que ainda está acontecendo com o mercado literário e se não mudar, os futuros lideres desse segmento serão empresas Web Puras; digo isso, porque não é sustentável se vender um eBook por um preço 70% do livro impresso, isso não é justificável do ponto de vista econômico (uma vez que o eBook não tem custo variável de produção, somente custos fixos que o livro impresso também tem). Assim, como justificar que um eBook que não tem papel e gráfica envolvidos possa custar 70% do preço de um livro impresso? E sem falar que o Autor, que é o elo mais importante dessa cadeia ainda é o que menos ganha em toda a cadeia. No nosso modelo de negócio o autor define o quanto receberá na venda do livro impresso e na venda do eBook ele Autor define o preço de venda e fica com quase 70% da receita da venda.

Considerando que ainda há um pessoal que acredita e defende que livro deve ser de papel, vocês já sofreram algum tipo de represália por serem uma editora que também trabalha com ebooks? Represália não …. mesmo porque ainda somos muito pequenos. O que vemos sim, é um olhar de curiosidade e de não crença de que esse negócio um dia pode dar certo. Acho que as palavras que definem melhor a relação é Curiosidade (de algumas) e Indiferença (da Maioria).

Como é a relação de vocês com outras editoras digitais? O negocio do Livro Digital ainda é muito pequeno no Brasil, assim, tem muito espaço de crescimento em função disso. A relação é uma relação saudável, pois todos estão tentando ocupar os espaços vagos. Acredito que mais para frente, quando esses espaços estiverem bem mais ocupados, a concorrência ficará mais acirrada.

O livro de papel vai acabar? Sinceramente, não acredito que vá acabar. Acredito sim, que ele será reduzido e bem menor que o do Ebook, mas continuará existindo para públicos específicos, e nesse sentido a produção sob demanda passa a fazer todo o sentido e cada vez menos a produção em grande escala. Por outro lado, para que isso aconteça, o crescimento da base instalada de Book Readers (equipamentos para leituras de eBook) tem que crescer muito ainda no Brasil. Hoje no Brasil, a maior parte desses equipamentos são Tablets, que foram comprados pelas pessoas para uma destinação bem diferente da de Ler Livros/Publicações, foram comprados para basicamente substituir os Laptops e assim são utilizados para acessar internet, redes sociais, jogos e etc e em ultimo plano ler publicações. Quando as pessoas começarem a fazer conta e perceberem que a relação custos beneficio do produtos digitais bacana, aí esse mercado explode mas para isso um eBook não pode custar 70% do livro impresso…

Vocês não temem abrir espaço para qualquer pessoa escrever e alguém fazer um livro muito ruim e com isso associarem de forma negativa ao trabalho da editora? Então …. nós não nos vemos como uma editora tradicional que dá seu aval ao livro quando coloca seu nome naquele livro e por isso mesmo, quase não publicam autores nacionais (somente os consagrados) pois investir em um autor desconhecido e torná-lo conhecido custa muito caro além de ser muito arriscado, pois depois que ele for famoso passará a sofrer assedio das outras editoras e manter esse autor ficará cada vez mais caro. Assim, financeiramente é muito mais negócio comprar os direitos autorais de um Autor de fora, que tenha feito sucesso relativo em seu pais e lançar esse livro aqui dizendo “esse autor fez sucesso em seu pais de origem, por isso ele e bom”. Concorda que isso é muito mais barato e muito menos arriscado para as editoras tradicionais? Diante desse quadro, qual a saída para os novos autores nacionais? Partirem para a Autopublicação tradicional onde as “Editoras” que na verdade são gráficas lhes cobram a partir de R$3.000,00 ou mais e lhes disponibilizam uma quantidade grande de livros que eles depois terão de vender sozinhos ou utilizar a nossa plataforma, onde ele tem que estar com o livro pronto (é verdade, e pronto no sentido de revisado e diagramado) e poderá publicar em nossa plataforma sem nenhum custo, sair divulgando e quando alguém comprar o livro nós produziremos sob demanda e entregaremos ao comprador e pagaremos os Rayalties ao Autor. Assim, o Autor não tem nenhum custo e recebe os Royalties que ele mesmo define o valor.  Como você vê essa facilidade de publicação é muito grande e permite que muitas pessoas possam retirar seus livros da gaveta e colocá-los a venda em nossa plataforma, assim teremos livros muito bons e livros muito ruins, pois nós somos só um instrumento nas mãos dos Autores Independentes. Isso é certamente uma inversão do modelo tradicional onde a Editora dá seu aval ao Livro/Autor, no nosso modelo essa relevância será dada pelos próprios leitores através de indicações, comentários e etc. De novo é a logica da internet que reduz a necessidade da intermediação dos avalistas e joga isso para que os próprios usuários também funcionem como avalistas. Assim, não temos porque temer que nosso nome será associado a produtos “dito ruins” pois na outra ponta teremos produtos “dito bons” e não é nossa missão dar aval aos produtos essa missão será dos consumidores a nossa missão é disponibilizar uma plataforma e oportunidades iguais de divulgação (nessa parte entram as Bienais) a todos os autores que desejarem publicar suas obras em nossa plataforma. É certamente um conceito novo e aos poucos as pessoas vão entendendo ele melhor.

Uma vez, o escritor Sérgio Santana disse que as pessoas estão escrevendo demais e que isso é ruim. Que seria melhor se lessem mais. O que você acha disso? Não quero criar nenhuma polêmica com relação a isso, pois não sei em qual contexto isso foi dito, mas fazendo apenas uma análise simplista se eu sou um autor e obviamente desejo que meus livros sejam vendidos também iria preferir que houvesse muito mais leitores que autores. Essa é só minha visão comercial do negocio, é melhor ter uma mercado consumidor ampliado que concorrentes ampliados. Por outro lado, acredito realmente que a PerSe democratiza e amplia a possibilidade de surgirem vários grandes escritores que poderão aparecer para o mercado em função da facilidade de publicar e divulgar suas obras. Quantos excelentes escritores e tem suas obras guardadas na gaveta e que nunca teriam sua qualidade reconhecida ou a teriam mas já na idade avançada, como o que ocorreu com Cora Coralina que só aos 75 anos conseguiu ter seu primeiro livro publicado? Nesse sentido que realmente acredito que essa plataforma é democrática.

O Brasileiro ainda é um povo que compra muitos livros, mas lê pouco. A que você atribui tal fato? Olha ….. eu prefiro ter uma outra visão desse “problema” que é a visão de que quando as pessoas encontram um livro de que gostam e se identificam com ele elas de um modo geral devoram literalmente o livro em questão de horas. Costuma-se dizer que jovens não leem e que livros para jovens tem que ser pequenos (poucas paginas), mas na contramão disso vi a pouco tempo atras os adolescentes devorando Harry Potter em edições cada vez maiores. Assim acredito que a questão está na relevância que aquilo tem para as pessoas, quando é relevante elas vão até o inferno para adquirir e devoram rapidamente ….  É muito difícil aparecer um Harry Potter, mas se aumentamos as possibilidades de novos autores aparecerem as chances de termos mais Harry Potter’s também aumentam. É nisso que acredito e por isso estou investindo na PerSe.

Qual o seu livro predileto? Um livro que me marcou muito foi “Outliers” de Malcolm Gladwell.

 

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REVISTA MAIS TEMIDA DO BRASIL

Imagem

Por Felipe Lucena

A revista Piauí é uma publicação composta por matérias jornalísticas ricas em detalhes.  Esses detalhes têm ajudado para que alguns debates sejam levantados e para que “tabus” sejam derrubados. Por coincidência ou não, depois de entrevistas à revista, o ex-ministro da defesa Nelson Jobim perdeu seu mandato, o ex-presidente da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), Ricardo Texeira, deixou o poder e as opiniões do pastor evangélico Silas Malafáia passaram a ser publicamente discutidas.

Nelson Jobim foi Ministro da Defesa do Brasil do dia 25 de junho de 2007 até 4 de agosto de 2011. Jobim se demitiu do mandato dias depois que uma edição da Piauí chegou às bancas. Nessa publicação, ele disse que a Ministra de Relações Institucionais Ideli Salvatti era “muito fraquinha” e a Ministra-Chefe da Casa Civil Gleisi Hoffmann “sequer conhece Brasília”.

Ricardo Texeira presidiu a CBF por 23 anos. Durante essas mais de duas décadas, denúncias e mais denuncias de corrupção em seu mandato foram divulgadas pela mídia. No entanto, uma entrevista dada à Piauí jogou de vez o assunto para o debate popular. Na edição de julho de 2011, Ricardo deixou público que tinha total controle sobre o futebol nacional e que nada, nem ninguém, o impedia de fazer o que queria. Em março deste ano, ele renunciou o cargo sob uma chuva de notícias que colocavam em cheque a honestidade de sua gestão.

Nos últimos meses, uma polêmica briga entre as igrejas Universal, Mundial e Assembleia de Deus ganhou destaque nos noticiários brasileiros. Apesar de o conflito entre relegiões ser tão antigo quanto as mesmas, pode se dizer que tudo “começou” depois que a entrevista que o Pastor Silas Malafia concedeu à Piauí foi publicada. Silas criticou líderes de outras igrejas, questionando a forma como eles administram o dinheiro que é dados pelos fiéis.

“Vê se outro pastor faz isso que eu faço. Eu divulgo onde gasto cada centavo que recebo. Vai lá no R. R. Soares e manda ele dizer onde ele põe a grana, vai lá no Edir Macedo e vê se ele abre as finanças dele”,  disse Silas em um trecho da entrevista.

Para João Moreira Salles, idealizador da Piauí, o que a publicação faz é contar bem uma história. Na edição deste mês, a revista traz a matéria “Escândalos da República”, que mostra onde foram parar os jornalistas que cobriram o impeachment de Fernando Collor.