PESSOAS EM SITUAÇÃO DE RUA NO RIO

Moradores de Rua* Matéria publicada no site Diário do Rio

Por Felipe Lucena

 Não é de hoje que o Rio de Janeiro e outras cidades do Brasil e do mundo enfrentam uma grave situação. Contudo, devido a uma série de fatores, o problema vem aumentando no Rio. Dados recentes da prefeitura carioca apontam que 14.279 pessoas vivem nas ruas do munícipio. É quase o triplo das 5.580 registradas em 2013. A tendência é esse índice negativo subir ainda mais.

De acordo com estudiosos do assunto, a quantidade de moradores de rua cresceu junto com a crise econômica do estado, impulsionada pelo desemprego. Além da condição econômica, rompimentos com a família, abusos, álcool, drogas e transtornos mentais estão entre os principais motivos que levam a essa situação.

Segundo a Política Nacional para a População em Situação de Rua, essas pessoas são, em sua maioria, 82% do sexo masculino; 53% com idade entre 25 e 44 anos; 67% são negros; A maior parte (52,6%) recebe entre R$20,00 e R$80,00 semanais. Desses, 70,9% exercem alguma atividade remunerada. Apenas 15,7% pedem dinheiro como principal meio para a sobrevivência.

“Olham para a gente com nojo ou medo. Quando olham. Nem todos somos ladrões. A gente dorme na rua porque não tem outro jeito. Se abrigo fosse bom, não tinha ninguém dormindo em calçada”, contou Reinaldo, de 35 anos, que vive nas ruas do Centro do Rio há cerca de cinco anos.

A prefeitura da cidade do Rio de Janeiro tem 38 abrigos próprios, 22 conveniados e dois Hotéis Acolhedores, que são apenas para pernoitar. No total são 2177 vagas para uma população de mais de 14 mil pessoas, o que dá cerca de seis moradores de rua para cada leito.

A Secretaria de Assistência Social do governo Marcelo Crivella emitiu que é preciso aumentar o número de abrigos e intensificar o programa “De volta a terra natal”, que prevê o retorno de pessoas em situação de rua para suas cidades de origem. Além disso, Teresa Bergher, a responsável pela Secretaria, afirmou que vai incluir os moradores de rua em um cadastro único, para que eles sejam inseridos nos programas de complementação de renda, como o cartão família carioca.

Paralelo ao crescimento do problema surgem formas ativas de combater a grave situação. O Projeto RUAS (Ronda Urbana de Amigos Solidários Ações), criado em 2014, é uma delas. A iniciativa, que atualmente conta com cerca de 50 voluntários – ao todo já passaram mais de 300 -, consiste em ajudar pessoas em situação de rua das mais variadas formas. Nesses três anos de trabalho, oito pessoas em situação de rua retornaram para casa, 20 foram encaminhadas para obter identificação civil, três conseguiram emprego, quatro se encontram em processo de reabilitação (sendo acompanhadas por voluntários do Projeto), um passou por um tratamento em uma casa de reabilitação para usuários de drogas e segue trabalhando desde o final de 2016, além de outros resultados positivos.

Projeto RUAS em ação

Projeto RUAS em ação

 

“É necessário ter políticas públicas eficientes para promover a cidadania e a geração de renda. A maioria das pessoas que estão em situação de rua não recebeu uma boa base de educação, alguns se desenvolveram em ambientes hostis, sem referências, oportunidades e com vínculos familiares rompidos. Além disso, a sociedade precisa entender essa problemática de forma mais empática, principalmente na Zona Sul do Rio de Janeiro, infelizmente, ainda encontramos muitas pessoas revoltadas por encontrar uma pessoa em situação de rua no seu bairro, esquecendo-se que cada indivíduo, independentemente da situação em que se encontra, é um ser humano, com anseios, talentos e rico em potencialidades”, opinou Allini Fernandes, cofundadora do Projeto RUAS.

Ajuda ao projeto RUAS

Ajuda ao Projeto RUAS

 

No debate sobre a questão, surgem ideias diferentes. Muitas pessoas acreditam que embora o Poder Público precise estar atento ao problema, é preciso, também, que as pessoas atuem de forma mais intensa: “São necessárias ações concretas em conjunto com a sociedade civil e principalmente o interesse dos indivíduos que encontram em vulnerabilidade social desejarem levar uma vida com qualidade seja ela onde for. Por fim, o presente artigo tem a finalidade de provocar no leitor a ideia de articulação entre estado e sociedade para a superação de estigmas e preconceitos junto ao imaginário social, a partir de socialização de pesquisas, realização de debates, uso educativo da mídia e formação de multiplicadores, de modo que esses sujeitos possam ter visibilidade – mas como sujeitos de fato e de direitos”, escreveu Luiz Marcio Amaral de Matos, enfermeiro especializado em ações sociais, para o Portal Educação.

Dentro do problema, existem outras questões paralelas. As drogas – lícitas ou ilícitas –  são um fantasma constante para quem vive em situação de rua. Há quem entre nessa triste realidade por consequência de algum vício e quem entre no vício por estar nessa triste realidade.

“Eu não uso nada, só bebo. Mas muita gente usa. É o jeito. Nessa situação que a gente vive, acaba sendo o jeito”, frisou Pedro, de 50 anos, morador da região central da cidade do Rio de Janeiro. Pedro está em situação de rua desde quando chegou ao Rio, a sete anos, vindo do Paraná.

Outro ponto alarmante são as crianças. No final do ano de 2012, a Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República realizou uma pesquisa em 75 cidades do país (entre elas o Rio de Janeiro), e constatou mais de 24 mil meninos e meninas em situação de rua no Brasil. Os principais motivos são: discussão com pais e irmãos (32,3%); violência doméstica (30,6%) e uso de álcool e drogas (30,4%). Passados quase cinco anos completos, os números tendem a ter subido ainda mais.

Muitas cidades em diversos países conseguiram controlar de forma mais efetiva o problema das pessoas em situação de rua. Algumas com políticas públicas, outras com ações mais voltadas ao mercado de trabalho e à sociedade civil. O Rio de Janeiro precisa achar o seu caminho, afinal, essa situação não é boa para ninguém.


CARNAVAL DE LETRAS

*Matéria publicada na revista Beija-Flor de Nilópolis – uma escola de vida

Por Felipe Lucena 

Para um país do porte do Brasil, com o protagonismo que tem na América do Sul e o destaque no restante do mundo, essa e outras colocações no quesito leitura são extremamente negativas. É preciso popularizar a literatura no Brasil. Este ano de 2017, a Beija-Flor de Nilópolis terá como enredo “A Virgem dos Lábios de Mel – Iracema”, inspirado no romance Iracema, de José de Alencar. A junção de carnaval, a festa mais popular do planeta, com uma obra literária pode colaborar em algum ponto para a disseminação do hábito de ler em terras tupiniquins.

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 Embora o mundo esteja mudando em alta velocidade e diversos conceitos, num piscar de olhos, passam a ser página virada, a ideia de que a leitura melhora as pessoas ainda é muito constante. Entre os comprovados benefícios do hábito de ler estão o estímulo à criatividade, o enriquecimento do mapa referencial, o fortalecimento da memória, o aumento da capacidade de reflexão, entre outros. Sim. Ler é muito importante.

“É possível que um analfabeto ou alguém que não tenha lido um livro na vida possa revelar uma sabedoria natural, um senso comum agudo e até uma grande carga de poesia. Conheci algumas pessoas assim na minha vida. Entretanto, o mais natural é que um país que não lê ou que aparece, como o Brasil, entre os piores leitores do mundo, esteja comprometendo seu desenvolvimento futuro – não apenas cultural, mas também econômico. Mais ainda, dificilmente entrará no rio da modernidade e do progresso um país não-leitor ao mesmo tempo que será refém dos poderes dominantes”, disse o jornalista e escritor Juan Arias em um texto no El País Brasil.

Em 2014, o Market Research World, respeitado instituto de pesquisa britânico, publicou o Índice de Cultura Mundial, ranking que se refere aos hábitos culturais dos países, entre eles a leitura. Nesta lista da Market Research World, que teve trinta nações analisadas, o Brasil apareceu em 27º, com médias de leitura que rondam menos da metade de tempo que dedicam na Índia, a população que mais lê em todo o planeta.

A Índia ocupa essa posição desde 2005. Os indianos dedicam aos livros, em média, 10 horas e 42 minutos semanais. Os seguintes três postos também são ocupados por países da Ásia: Tailândia, China e Filipinas. O quinto é o Egito. Posteriormente vem a nação europeia melhor colocada, a República Tcheca, seguida por Rússia, Suécia (empatada com a França), e depois Hungria – ao lado da Arábia Saudita. Sobre América Latina, o país mais leitor é a Venezuela, no 14º lugar. Depois vêm a Argentina, em 18º.

Para um país do porte do Brasil, com o protagonismo que tem na América do Sul e o destaque no restante do mundo, essa e outras colocações no quesito leitura são extremamente negativas. É preciso popularizar a literatura no Brasil. Este ano de 2017, a Beija-Flor de Nilópolis terá como enredo “A Virgem dos Lábios de Mel – Iracema”, inspirado no romance Iracema, de José de Alencar. A junção de carnaval, a festa mais popular do planeta, com uma obra literária pode colaborar em algum ponto para a disseminação do hábito de ler em terras tupiniquins.

Em maio do ano passado, foi divulgada uma pesquisa do Retratos da Leitura que apontava que 44% da população brasileira não lê e 30% nunca comprou um livro. O brasileiro lê apenas 4,96 livros por ano. Desses, 0,94 são indicados pela escola e 2,88 lidos por vontade própria.  Do total de livros lidos, 2,43 foram terminados e 2,53 lidos em partes e não finalizados.

Júlio Silveira, curador do evento literário “LER – Salão Carioca do Livro”, que aconteceu em novembro de 2016, no Pier Mauá, na Zona Portuária da cidade do Rio de Janeiro, aposta na força das feiras literárias e na potência agregadora da leitura:

“Acreditamos no poder do livro e quisemos reunir pessoas e histórias diferentes, para gerar novas ideias. Temos todo respeito e admiração pelos outros festivais literários, eles são muito importantes, mas na hora de conceber o LER, vimos que nossa diferença seria justamente abraçar as diferenças. Assim, procuramos todas as vozes: jovens, negros, geeks, índios, acadêmicos, blogueiros e muito mais. Tivemos um bom resultado”, afirma Júlio.

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Os números preocupantes não param. Um levantamento do Movimento Todos Pela Educação, realizado há sete anos, com base no Programa Internacional de Avaliação de Alunos (Pisa), analisou 65 países. O resultado foi que cerca de 40% dos estudantes brasileiros declararam possuir, no máximo, dez obras literárias. Somente 1,9% é dono de mais de 200 volumes. O estudo apontou que a baixa escolaridade do país e a situação socioeconômica ruim são os principais motivos. Considerando os recentes fracassos nos programas de educação e a situação econômica pouco positiva do Brasil, a tendência natural deste grave problema é não ter melhorado tanto ao longo dos últimos anos.

Jornalista e escritor, Xico Sá, é, acima de tudo, um leitor. Membro do projeto “Você É O Que Lê” (ao lado de Maria Ribeiro, Gregório Duvivier) que tem como intenção principal debater a literatura em todo o Brasil, Xico julga que o hábito de ler deve ser algo atrativo, não ser tratado como um alvo distante, inalcançável.

“Não temos uma crise da escrita no Brasil. A crise é de leitores, não de escritores. A literatura deve ser algo interessante, não ficar nessa de ser algo que só certas pessoas podem ter acesso. Assim, nós teremos mais gente lendo”, frisa o autor.

Um dos lados deste problema que é a falta de uma grande população leitora no Brasil é composto pelas editoras. Como é a situação de quem produz livro em nosso país?

“Em nossa visão, o futuro do mercado editorial é a venda de livros impressos sob demanda e eBooks por seus próprios autores, acabando com as intermediações. Esse foi o grande benefício que a internet trouxe que foi a possibilidade de contato direto entre o produtor do conteúdo e o consumidor sem intermediários, como aconteceu com o mercado fonográfico.  Sobre o autor, que é a peça mais importante dessa cadeia, precisa de mais valorização. No nosso modelo de negócio o autor define o quanto receberá na venda do livro impresso e na venda do eBook. Ele define o preço de venda e fica com quase 70% da receita da venda”, opina Antônio Hercules Junior, criador da Editora Perse, que trabalha com a publicação online  e impressa de novos autores.

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As livrarias também têm seu capítulo nesse drama. Como é sabido, a venda de livros no Brasil é inferior a de muitos países. Contudo, usando de novos artifícios, entre eles a venda online, essas empresas vão se mantendo no mercado. De acordo com o site Publishnews, os três livros mais vendidos em nosso país em 2016 são de seguimentos populares por aqui: literatura infanto-juvenil internacional, autoajuda e biografias. Os títulos são: Harry Potter e a criança amaldiçoada, J. K. Rowling (Rocco); O homem mais inteligente da história, Augusto Cury (Sextante); Rita Lee – uma autobiografia, Rita Lee (Globo Livros).

Os autores não poderiam ficar fora da narrativa. André Vianco, escritor brasileiro com uma história repleta de best selers, acredita que a literatura é fundamental para a sociedade e diz que a vida de escritor não é fácil, mas com esforço se consegue.

“Comecei a escrever há 16 anos e hoje vivo de literatura. Existem as dificuldades, principalmente no início, no entanto, é possível. Com dedicação e seguindo as ideias certas, é possível. Sobre o público, é evidente que nós, brasileiros, precisamos ler mais”, destaca André, que dá cursos para jovens escritores no site Vivendo de Inventar.

São muitas páginas da mesma história, mas o desfecho do enredo deve ser esse: precisamos incentivar, cada vez mais, independentemente dos meios, a leitura no Brasil. E o carnaval pode sim ser um instrumento para isso.


VOLTA OLÍMPICA: GOLFE E RUGBY

Por Felipe Lucena

As Olimpíadas do Rio de Janeiro, entre outros aspectos, serão marcadas pelo retorno de dois esportes ao quadro de competições: Golfe e Rugby. Esse regresso pode estar construindo uma era de maior popularidade para essas modalidades esportivas.

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Mais de um século separa o Golfe de uma edição de Jogos Olímpicos. O esporte foi retirado da competição em 1904. O Rugby fez parte de uma Olimpíada pela última vez em Paris, no ano 1924. As modalidades foram excluídas da condição de olímpicas por serem, na época, esportes pouco populares. Agora, elas voltaram ao circuito com moral.

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Na votação realizada pelo Comitê Olímpico Internacional (COI), no dia 9 de outubro de 2009, a fim de definir se os esportes voltariam aos Jogos, o Golfe obteve 63 votos a favor, 27 contra e duas abstenções. Como precisava da maioria simples, a modalidade esportiva teve seu regresso assegurado. O Rugby, que na Rio-2016 será jogado em uma versão com sete jogadores, voltou ao cenário com uma reação ainda mais simbólica: 81 votos a favor e oito contra, além de apenas uma abstenção.

O Golfe no Rio 2016

De acordo com Paulo Cezar Pacheco, presidente da Confederação Brasileira de Golfe (CBG), a presença do Golfe nos Jogos Olímpicos do Rio é fundamental para que o esporte se fortaleça no Brasil – o que ele garante que já vem acontecendo:

“A volta do Golfe aos Jogos Olímpicos é um marco no esporte e o fato de isso acontecer justamente no Rio de Janeiro é um grande presente que o Golfe brasileiro recebeu. Teremos como grande legado o Campo Olímpico, primeiro campo público brasileiro de grandeza internacional, que poderá abrir as portas para outros eventos de grande importância mundial. Com parcerias com o COB (Comitê Olímpico Brasileiro), via lei Agnelo/Piva e do Ministério do Esporte, estruturamos de forma muito profissional o alto rendimento e a base do Golfe nacional nos últimos anos, nos preparando para a Rio-2016 e para Tóquio-2020. Criamos também projetos como o “Golfe para a Vida” que já capacitou mais de 260 professores de educação física para ensinar os fundamentos da modalidade a mais de 50 mil crianças em várias cidades brasileiras, dentro das suas escolas” diz Paulo Cesar.

Após algumas polêmicas – como a questão da preservarão ambiental e uma investigação sobre ganhos ilícitos da prefeitura com a obra – o campo de Golfe Olímpico ficou pronto e já foi testado por alguns atletas.

A importância histórica da volta do Golfe aos Jogos Olímpicos é indiscutível. Dentro dessa esfera maior que é o esporte como um todo, estão os atletas, que sabem do peso desse acontecimento. Lucas Lee, golfista brasileiro com chances reais de disputar a Rio-2016 através do ranking mundial.

“Esse retorno está dando uma visibilidade sem precedentes para o esporte. Na minha última passagem pelo Brasil, por exemplo, fui entrevistado pelo Globo Esporte e pelo Jornal da Globo, algo impensável alguns anos atrás. Imagino que a cobertura que a mídia dará ao Golfe durante os Jogos Olímpicos atrairá muito a atenção dos brasileiros, já que os melhores golfistas do mundo estarão no Rio de Janeiro” conta Lucas.

O Rugby no Rio 2016

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O Rugby nos Jogos do Rio será disputado no Estádio de Deodoro, que ficará no complexo esportivo que está sendo erguido no bairro da zona oeste da cidade.

A opinião de Fernando Portugal, jogador da seleção masculina de Rugby Sevens, assemelha-se a de Lucas Lee. Fernando comenta a grande missão dos brasileiros: “Estamos vivendo um momento mágico do Rugby e do esporte brasileiro. Disputar os Jogos Olímpicos é o maior sonho de qualquer atleta. Temos uma responsabilidade enorme jogando em casa, contra os melhores do mundo” conta o jogador.

Títulos, conquistas e visibilidade internacional também ajudam e muito a popularizar uma modalidade esportiva.

As Tupis, como são chamadas as meninas da Seleção Brasileira Feminina de Rugby Sevens, ganharam uma medalha de bronze inédita nos Jogos Pan-americanos de 2015. De quebra, garantiram uma vaga nas Olimpíadas de 2016, no Rio de Janeiro.

Tupis

“Fomos para Toronto com o objetivo de conquistar uma medalha e alcançamos nossa meta com esse bronze – a vaga olímpica. Foi um torneio muito duro, diante de adversárias fortes. Foi também a estreia do Rugby feminino no Pan, então colocamos nosso nome na história da competição com a conquista e isso ajuda muito o esporte”, afirmou Paulinha Ishibashi, capitã da equipe.

Brasil vem realizando ações para popularizar o golfe

Historicamente, Golfe e Rugby não são esportes praticados nas camadas economicamente mais carentes das populações dos países pelo mundo. Entretanto, no Brasil, algumas ações vêm sendo realizadas para sermos mais uma exceção à regra.

Em 2005, foi criado, através da Associação Golfe Público de Japeri, o primeiro campo público do Brasil, que foi construído a partir de patrocínios e doações: O Japeri Golfe Clube tem nove buracos, possui ainda um Driving Range (área de prática) e a Associação disponibiliza aluguel de equipamentos. O espaço também é sede de uma escolinha de Golfe, que atende a mais de 100 crianças com idades entre sete e 17 anos, moradoras de

No campo já brotaram muitos talentos do esporte. Um deles é Cristian Barcelos, segundo colocado no ranking estadual adulto, na categoria masculina scratch. Uma das promessas do esporte nacional. Cristian, que hoje tem vinte anos, quando ainda era um adolescente oriundo de um dos munícipios mais pobres do estado do Rio de Janeiro (Japeri), foi premiado com uma semana de treinamento na David Leadbetter Golf Academy, uma das melhores clínicas de Golfe do mundo, que fica no estado norte-americano da Flórida. Por lá, o garoto passou por treinamentos e palestras sobre preparo psicológico durante partidas e competições. Ele lembra o acontecido: “Foi uma das viagens mais legais da minha vida. Além de melhorar no Golfe, aprendi muitas outras coisas” recordou o garoto.

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Rugby na areia pela democratização do esporte

Outro grão nessa imensidão que visa à democratização dos dois esportes no Brasil é a disputa dos campeonatos de Rugby na areia. Nada mais agregador que as praias do Rio de Janeiro. E é na orla carioca que são realizadas as partidas do Campeonato Fluminense, que tem séries A e B, além de competições também no feminino.

Os admiradores desse esporte terão um “ponto fixo” para assistir e praticar Rugby no Rio de Janeiro. No dia 24/6/2015, a Confederação Brasileira de Rugby (CBRu) e a World Rugby (Federação Internacional) inauguram o primeiro campo de Rugby fixo em uma praia do Brasil. A estrutura com as duas traves em formato de “H”, tradicional da modalidade, ficam na praia de Copacabana, entre o número 1.130 da Av. Atlântica e a Avenida Princesa Isabel.

“Com o campo de Rugby em Copacabana queremos disseminar e popularizar a modalidade na cidade-sede dos Jogos Olímpicos. Ter um campo na praia ajudará a que as pessoas fiquem mais próximas ao Rugby no seu dia a dia e possam facilmente começar a se animar a praticá-lo. Sabemos que nos jogos o torneio de Rugby irá atrair muitos torcedores brasileiros e estrangeiros. Com o campo na praia mais famosa do país, vamos também buscar o engajamento desse público” afirma Agustin Danza, CEO da CBRu.

“Nunca o Golfe foi tão conhecido pelo brasileiro. Hoje ele é um esporte possível de ser praticado por toda a sociedade” garantiu Paulo Cezar Pacheco, presidente da Confederação Brasileira de Golfe.

Que assim seja. Que as opiniões de Agustin Danza e de Paulo Cezar sejam cada vez mais repetidas por aí. Esse é um jogo que todos ganham.


SAMBA-EXALTAÇÃO

História dessa modalidade de samba tão presente no carnaval carioca

Por Felipe Lucena 

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Há quem defenda que o momento mais emocionante de um desfile de uma escola de samba é o “esquenta”. Opiniões e exageros à parte é nessa hora que normalmente os sambas exaltação das agremiações são entoados e de fato é ali que a comunidade mostra sua força antes de pisar definitivamente na avenida.

Quando, no final dos anos 1920, as escolas de samba se organizaram como agremiações, o sentimento de rivalidade e paixão que já existia nas disputas anteriores de blocos, ranchos e cordões se avolumou. Com isso, letras que exaltavam o amor às escolas de samba passaram a fazer um sentido maior para as pessoas que estavam envolvidas nesses ambientes. Essa ideia se esticou pelas décadas e se mantém firme até hoje em dia. É comum notar nas quadras e barracões, torcedores das agremiações do Carnaval cantando seus hinos (os sambas de exaltação) como se estivessem em um estádio de futebol assistindo a uma final diante do maior rival.

A nomenclatura “samba-exaltação” surgiu em 1939. No entanto, a ideia de sambas que faziam menções honrosas a algo já existia desde o início da década de 1930, quando Getúlio Vargas se tornou presidente da República. Nesse período, os compositores passaram a escrever letras que exaltavam o Brasil e o governo. Também em 1939, Vargas criou o Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP). Até então, o samba era voltado à malandragem. A partir daí, o governo investiu no uso da música como veículo de sua ideologia, principalmente de entusiasmo ao trabalho, chegando a distribuir verba para as
escolas de samba para que abordassem temas de cunho patriótico em seus desfiles. Um dos maiores representantes desse gênero foi o compositor Ary Barroso, que fez, em 1939, “Aquarela do Brasil”, considerado o primeiro samba-exaltação da história. Ary chegou a ser acusado de ter aceitado uma encomenda de Getúlio Vargas, devido a grande coincidência do conteúdo da música com o contexto vivido no momento. Barroso, que em meados dos anos 1940 chegou a ser eleito vereador do Rio de Janeiro pela UDN (União Democrática Nacional), que na época era oposição ao PTB de Vargas, se defendia dessa argumentação alegando que foi pura coincidência, que não escreveu nada a mando de ninguém.

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De todos os sambas e marchinhas ufanistas, uma canção se destacou. A escola de samba Deixa Falar, conhecida como a primeira do Brasil, desfilou em 1932 – ano que marcou o início do Carnaval com disputa de título entre as agremiações – com o enredo “A Primavera e a Revolução de Outubro”, uma clara homenagem a chegada de Vargas ao poder dois anos antes. Do samba que exaltava o país para o samba que exalta as escolas foi um caminho reto. O historiador Claudio Russo, um dos pesquisadores da Comissão de Carnaval da Beija-Flor, diz como se deu esse processo: “Precisar exatamente a época e qual escola de samba começou é uma tarefa um tanto quanto difícil, mas podemos dizer que por muito tempo o samba-exaltação foi uma prática extremamente utilizada pelos compositores das escolas. Temos para posteridade grandes sambas como as composições de Candeia, Chico Santana e Paulinho da Viola,
na Portela; Silas de Oliveira e Mano Décio, na Império Serrano, que nos deixaram tantas obras magnificas. Na Academia do Salgueiro, Geraldo Babão e Djalma cantarolavam seus sambas com a beleza de um Sabiá – desculpe o trocadilho. Na Estação Primeira, Cartola afirmava: ‘Muito velho, pobre velho vem subindo a ladeira com bengala na mão é o velho, velho Estácio. Vem visitar a Mangueira’… Isto nas quatro grandes escolas do passado. Se for me estender um pouco mais, em verde e branco ecoa a Rainha de Ramos, a Mocidade! Mas tenho certeza que a Beija-Flor está muito bem representada com ‘A Deusa da Passarela’, do Neguinho”.

Claudio ainda pontua que é preciso que haja uma mobilização para que diversos subgêneros do samba não se tornem apenas uma saudosa lembrança. “Acredito que a escola de samba deve ter muito mais que apenas o concurso de samba-enredo. Poderíamos semear este solo tão fértil de valores e talentos com festivais de sambas de quadra, de terreiro e principalmente sambas de exaltação nas tardes de sábado ou domingo, para que assim possamos fortificar e preservar as raízes do samba, o amor ao pavilhão e a história para as novas gerações”, disse o historiador.

Monarco, um dos maiores nomes da história do samba e do carnaval, afirma com veemência a importância que o samba-exaltação tem para uma escola: “É mais importante que o samba-enredo. É um samba que sai do coração. O samba enredo é encomendando, vem de fora. O samba-exaltação vem de dentro. Óbvio que os dois são importantes, o de enredo e o de exaltação. Mas o de exaltação tem esse algo a mais, essa coisa de reforçar o amor à escola de samba. O samba-exaltação é uma coisa que não deve morrer” conta ele, que está na ala dos compositores da Portela desde 1950.

Outro baluarte do carnaval, Nelson Sargento, depois de frisar que os sambas exaltação são extremamente necessários para a manutenção da alma da festa, apontou seus prediletos: “Gosto dos que o Silas de Oliveira fez para a Império. Os do Salgueiro são ótimos. A Beija-Flor tem uns muito bonitos também”.

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O samba-exaltação é o refrão que levanta o bloco. Anizio Abrão David, presidente de honra da Beija-Flor, uma agremiação oriunda de uma comunidade que praticamente respira carnaval, sabe bem do peso dessas composições: “A gente nota que quando esses sambas são tocados, vez, ele, que faleceu anos atrás, declarou que lamentava o fato de os sambas exaltação não terem mais tanta força quanto já tiveram em outros carnavais e apontou suas letras favoritas desse estilo: “A Deusa da Passarela”, de Neguinho da Beija-Flor e “Eu sou de Nilópolis”, escrita por Osório Lima, um aclamado compositor.

Quando se fala em samba-exaltação e em Beija-Flor, inevitavelmente se pensa em Neguinho e “A Deusa da Passarela”. O interprete e compositor da Azul e Branco de Nilópolis lembra como foi fazer essa canção: “Eu estava esperando uma ligação na casa da dona Iolanda, onde o Joãozinho Trinta também morava. Era um domingo, em 1979. Aí o Joãozinho me perguntou o que eu achava de ele fazer um concurso para que criassem sambas que exaltassem a Beija-Flor. Eu elogiei a ideia. Logo em seguida, ele saiu, foi na rua resolver algum assunto rápido. E isso ficou na minha cabeça. Na mesma hora escrevi a letra de ‘A Deusa da Passarela’. Quando ele voltou, mostrei para ele. Ele ficou emocionado demais e muito surpreso por eu ter feito a letra tão depressa. Então, ele me disse que não precisava mais de concurso nenhum, que o que ele queria era exatamente o que eu havia acabado de escrever”.

O assessor jurídico da Liesa, Ubiratan Guedes, também é um entusiasta dessa modalidade de samba. Ele reforça a atmosfera que cerca essas composições: “O samba-exaltação é aquilo que para a escola é o equivalente ao hino do time de futebol. É um hino que funciona como um chamado geral, que desperta a emoção da comunidade, que busca no interior de cada componente a força para se fazer um grande carnaval, ultrapassando, muitas vezes, limitações da agremiação. O ‘esquenta’, que realmente esquenta a emoção das pessoas, é fundamental. Se eu pudesse escolher entre um samba de anos anteriores ou um samba de exaltação, eu sempre escolheria o samba-exaltação, de esquenta, porque esse mexe com a sensibilidade mesmo. Todo mundo canta, todo mundo participa e a comunidade se inspira, fica mais energizada para desfilar” enfatiza o advogado.


‘É PRECISO RESPEITAR A ÉTICA MÉDICA’

Médico responsável por um dos primeiros transplantes de rins do Brasil revela suas opiniões sobre o atual cenário da medicina

Por Felipe Lucena 

Urologista, fez mais de 40 mil cirurgias na carreira.

Urologista, fez mais de 40 mil cirurgias na carreira. (Foto por Humberto Souza)

A história de Daibis Rachid pode ser um enredo de amor. Amor à medicina, amor à vida, amor à família e à esposa Julieta, com quem ele é casado há 52 anos e a quem o “Romeu” se refere como “alicerce”. É também de amor ao próximo. Em uma das paredes da sala do apartamento onde vive com a inseparável companheira, tem uma placa que diz (em libanês): “Meu Deus, abençoe essa casa e a todos que nela entrarem”.

O médico urologista que dedicou boa parte do tempo à profissão, foi, entre muitas outras coisas, Coronel Médico da PM do Rio de Janeiro, chefe de urologia do Hospital da Beneficência Portuguesa e médico do Souza Aguiar. Além de ter sido professor da Faculdade de Medicina de Teresópolis – da qual também é fundador -, na Souza Marques e na pós-graduação da Carlos Chagas. Aposentou-se com mais de 80 anos, tendo feito cerca de 40 mil cirurgias.

Pai de Laila, Daibes Filho, Mariam e Isabele (todos trabalham com medicina) e avô de oito netos, ele nasceu em Cajuri, Viçosa, Minas Gerais. Por lá, quando garoto, ajudava o pai libanês a costurar fardo de tecido para a confecção de roupas. Na família, entre os de sangue e os agregados, são 38 médicos – oito urologistas -, até netos já estão se encaminhando para a área médica, uma delas está no segundo ano do curso.

Muito emocionado ao lembrar a história de vida, principalmente quando falou do irmão Michel Abraão Daibes – que faleceu há mais ou menos um ano e meio -, Rachid concedeu uma interessante entrevista, na qual temas atuais da medicina (além de memórias pessoais) foram destaques.

OCulto: Como o senhor começou sua carreira profissional?

Daibes Rachid: Eu vim de Minas Gerais para o Rio de Janeiro com mais ou menos 20 anos para fazer o antigo cientifico e posteriormente iniciar os estudos de medicina. Fui orientado pelo meu irmão, que já era estudante de medicina. Meu irmão Michel (fica emocionado ao lembrar) ajudou a descobrir em mim a vocação para a medicina. Em 1952, me formei médico na Faculdade de Ciências Médicas, que hoje é da UERJ. Ainda durante a faculdade, eu já trabalhava. Depois de formado, montei meu pequeno consultório no centro da cidade. Meu pai Abrão Daibes e minha mãe, Amélia Cury, me pediram para que meus primeiros pacientes fossem atendidos de graça. Assim eu fiz com muito prazer. Esses pacientes chamaram outros pacientes para meu consultório.

OCulto: Lembra-se de alguma história primordial que fez o senhor escolher o curso de medicina?

Daibes Rachid: Quando eu tinha uns 10 anos de idade, eu e meu irmão ficávamos até tarde da noite ajudando nosso pai a costurar os tecidos que ele vendia. Uma vez, um cliente chamado Corino Araújo (não esqueço o nome dele) chamou a atenção do meu pai: “O senhor fica colocando seus filhos para trabalhar até a essa hora?”. Meu pai, muito inteligente que era, disse: “Senhor Corino, hoje eles costuram fardos de tecido, amanhã vão costurar barrigas”. Por isso guardo até hoje as agulhas que usava para costurar quando menino. Com essas memórias e outras situações da vida, eu não poderia ser outra coisa. Tinha que ser médico.

 OCulto: Quais foram as dificuldades iniciais de sua vida como médico?

Daibes Rachid: Eu não encontrei grandes problemas, pois tive bastante apoio, do meu irmão, que se formou três anos antes de mim. Além dele, trabalhei com o urologista Rui Guiana, grande médico que muito me ensinou. Antes de começar a especialidade com Rui Guiana, eu aprendi a parte de cirurgia geral com Humberto Barreto. Com o Humberto, eu estava no segundo ano de medicina. Ele me disse que lá para o sexto ano, eu entraria na sala de operações. Menos de três semanas depois, eu já estava o ajudando a operar pacientes. Fiquei com o professor Barreto dois anos e fui trabalhar com o Guiana, que havia acabado de chegar dos Estados Unidos, onde ficou 10 anos na chefia da melhor escola de medicina de lá. Eu também queria estudar fora, mas ele me pediu para que ficasse trabalhando com ele. Fiquei por muitos anos. Até depois de formado. Aí, como já tinha alguns clientes, resolvi seguir meu caminho só, montar meu consultório.

 OCulto: Se for possível, poderia detalhar o que o senhor julga ser o maior feito profissional de sua vida?

Daibes Rachid: Fui um dos primeiros a fazer um transplante renal no Rio de Janeiro e no Brasil. Isso me orgulha muito. Fui com uma equipe para São Paulo, que tinha a estrutura necessária para realizar esses transplantes na época, e trouxemos de lá o que precisávamos, montamos no Hospital da Beneficência Portuguesa o aparato para realizarmos alguns dos primeiros transplantes de rins do Rio.

 OCulto: Ser médico ainda é um sonho difícil de alcançar para pessoas de origens menos abastardas financeiramente. O que o senhor acha que deve ser feito para mudar essa realidade?

Daibes Rachid: Algo que pode ser feito é começar como enfermeiro, instrumentador. Vi muita gente iniciar assim: começaram no apoio e galgaram passos maiores, chegando à condição de médicos.

 OCulto: Em sua opinião, o que deve acontecer para que a saúde pública do Brasil melhore?

Daibes Rachid: É preciso respeitar a ética médica. É preciso respeitar e seguir a ética médica. Colocar os estudantes de medicina para trabalhar durante o curso, pagamentos mais dignos, hoje em dia um médico não pode comprar um apartamento, e dar qualidade, estrutura para os profissionais. Além de bons auxiliares. Sem esses pontos não dá para melhorar. Seja na saúde pública ou privada. Trabalhei no Souza Aguiar por dois anos, passei em primeiro em um concurso de títulos apresentados. Nessa época, a saúde pública era melhor, porém, a cidade tinha menos pessoas. Por conta de alguns problemas, eu pedi para sair do Souza Aguiar. Dias depois, fui nomeado para o Hospital da Beneficência Portuguesa. Sei como as coisas são e se não forem tomadas as medidas que citei, ficará difícil melhorar a saúde do nosso país.

OCulto: Qual a opinião do senhor sobre o Programa Mais Médicos?

Daibes Rachid: Não digo que sou contra, mas acho que temos que utilizar os médicos brasileiros antes de tudo. Os que vierem de fora, deveriam antes passar por estudos aqui para se adaptarem às realidades de um novo país, diferente do de onde eles vieram. Acho que pode vir profissionais de fora do país, mas seria bom passar por uma espécie de residência aqui, para entenderem melhor a questão cultural do Brasil.

OCulto: O que o senhor acha dos médicos brasileiros?

Daibes Rachid: O profissional de medicina do Brasil é muito capaz. Muito inteligente. O que falta aqui é estrutura de trabalho, salários mais dignos. Os médicos hoje em dia recebem um valor irrisório para trabalhar.

 OCulto: Quais as lembranças que o senhor leva da medicina?

Daibes Rachid: Quando eu encosto a cabeça no meu travesseiro, peço para Deus para que eu sonhe com os atos cirúrgicos mais difíceis que executei ao longo da minha carreira. Peço até hoje, pois muito me orgulho deles. Sensação de dever cumprido.

OCulto: O senhor fala com muito carinho de Julieta, sua esposa. Como vocês se conheceram?

Daibes Rachid: Eu operei um parente dela. Com isso, me aproximei da família dela. Quando a conheci, me encantei. Foi o maior presente que a medicina me deu.

Urologista, fez mais de 40 mil cirurgias na carreira.

Casal Rachid. (Foto por Humberto de Souza)

OCulto: E na vida pessoal, quais são seus sonhos?

Daibes Rachid: Sempre sonho com minha família feliz. Isso que desejo.

 


‘COMBATER O EI EXIGE UNIDADE’

Especialista em Oriente Médio comenta problemas da região, entre eles o Estado Islâmico

Por Felipe Lucena 

Em Bagda em 1979

Najad em Bagda no ano de 1979

Nascido em Trípoli, no Líbano, Najad Khouri tem 66 anos, uma esposa, três filhos e uma neta. Nos anos 1970, após ver um dos tantos gols de Pelé, na Copa do Mundo do México, decidiu vir ao Brasil para conhecer e trabalhar e por aqui ficou.

Especialista em Oriente Médio, Khouri, atualmente trabalha fazendo análises políticas da região para a Petrobrás e empresas parceiras. O conhecimento dos países que compõe essa parte do planeta é tão vasto que ele também dá palestras sobre o assunto.

Najad Khouri concedeu uma entrevista ao OCulto na qual esclareceu muitas questões atuais da geopolítica mundial entre outros assuntos.

Como começou sua carreira profissional e quando ela foi direcionada para a área do petróleo e energia?

Tudo começou com a faculdade em Campinas, fiz a PUC lá. Eu trabalhava para pagar os estados. Comecei a trabalhar no mercado de capitais e seguros e computação, depois quando a filial Interbras abriu escritórios no Oriente Médio, me candidatei e fui trabalhar no Iraque e Iran. Isso se deu durante a ascensão de Saddam Hussein ao poder e a chegada da revolução islâmica no Iran, além da guerra entre Iran e Iraque.

Quando saiu do ramo petrolífero, o senhor montou um negócio próprio, em outra área. Por que, depois de tanto tempo, uma a volta para um mercado tão denso e tenso como o do petróleo?

Abri uma pequena exportadora e importadora que virou uma loja de tapete bem sucedida, a Isfahan Tapetes e Kilims, com sede na Lagoa e filiais na Barra e Teresópolis. Quando eu estava pensando em me aposentar, porque meu filho assumiu a renovação e administração das lojas, fui reintegrado a Petrobras, onde estou atuando na área da estratégia corporativa de olhar sobre o Oriente Médio.

Como o senhor enxerga esses problemas pelos quais a Petrobras passa?

Não estou apto a falar sobre isso.

Najad Khory 01

Najad e um amigo no Clube Monte Líbano, Zona Sul do Rio

Seu conhecimento sobre a política e a economia do Iraque, Irã e Oriente Médio permite traçar melhor os problemas e desafios dessas nações. Poderia pontuar quais os principais problemas que esses países vivem e, sob o seu ponto de vista, o que os governantes desses países devem fazer para resolver essas questões?

Há disputas pela hegemonia politica, religiosa entre as duas potências regionais: Iran e Arábia Saudita que infelizmente está pipocando no Iraque, Síria, Iêmen, Líbano e Bahrain. Cada país com as suas características. A divergência enfraquece tanto os xiitas quanto os sunitas e permite o surgimento de força robusta Islamista, o Estado Islâmico que pode atracar os dois países.

 Como analisa as intervenções políticas, sociais, culturais e militares de alguns países do Ocidente na região do Oriente Médio?

Depois da Primeira Guerra Mundial, o Oriente Médio ficou sob a tutela da França e da Inglaterra.  E depois da Segunda Grande Guerra e com ascensão das duas superpotências Rússia e Estados Unidos substituíram a Europa e começaram a influenciar mais. Obviamente que a dependência do petróleo Árabe, o acordo de paz entre Israel e Egito e a hegemonia mundial aumentaram a influência norte-americana que é o pilar da segurança da península arábica e do tráfego marítimo mundial em geral e especificamente dos estreitos de Hormuz e Bab al Mandab  por onde passam metade do trafego mundial petrolífero.

Qual o tamanho da ameaça do Estado Islâmico? É preciso contê-lo? Se sim, como fazer?

É uma força robusta que vem desestabilizando a região com métodos não convencionais e crescendo onde tem Estados enfraquecidos ou ausência do Estado soberano. Combater o Estado Islâmico exige unidade, ação não só militar, mas inteligente – o que obviamente está faltando na região, portanto a situação está muito complexa.

Existem oportunidades de negócios para jovens brasileiros nos países do Oriente Médio? Quais oportunidades seriam essas e quais dicas daria para quem pretende sair do Brasil para buscar emprego ou renda em um desses países?

De exportação e trabalho na área de petróleo, de logística e de estudos avançados. Têm oportunidade a níveis médios também. Os países do Golfo estão crescendo muito.

Gostaria de deixar alguma mensagem final?

Vamos trabalhar juntos por um Brasil, um mundo melhor.


MOTORISTA QUE VIROU BARBEIRO

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Oliveira na barbearia do Clube Monte Líbano


Por Felipe Lucena

A Oliveira Barbearia, que fica no Clube Monte Líbano, Zona Sul da cidade do Rio de Janeiro, é comandada por José Rocha de Oliveira, um senhor de 70 anos que ama a profissão que exerce há 51 aniversários e tem uma história de vida que merece ser contada sem cortes. Como a de muitas outras pessoas que ajudam a compor o cenário dos 450  anos da Cidade Maravilhosa.

Oliveira, como é conhecido, começou a trabalhar no Clube em 1978, por intermédio do presidente na época. Ele era funcionário em um salão no bairro do Castelo, centro do Rio, e foi convidado para assumir a barbearia do Monte Líbano.

O senhor de discurso aparado e objetivo conta quando foi o auge de sua profissão e tem uma explicação no mínimo curiosa para defender a teoria:

“A melhor época para ser barbeiro foi nos anos 1970. Todo mundo era cabeludo e o cabeludo sempre quer dar uma aparada, um jeito no cabelo, um penteado, um reflexo. Então todas as semanas os salões e barbearias ficavam cheios. Foi nessa época que eu ganhei dinheiro, comprei carro, apartamento”.

O experiente barbeiro deu os primeiros passos na profissão em sua terra natal, Viçosa, Minas Gerais, no fim dos anos 1950, começo dos 1960. Por lá, ainda adolescente, ele fez um curso para ser barbeiro. Depois, passou um curto período em São Paulo e com 18 anos veio para o Rio de Janeiro onde exerceu um trabalho no qual ser chamado de “barbeiro” não é nada bom.

“No exército, eu era motorista. Quis ser motorista porque motorista passeava mais. Fiquei dois anos lá, no serviço obrigatório, dei baixa como cabo. Sai para ser barbeiro fora do quartel, já que nas horas vagas, eu já estava fazendo uns bicos na área” disse Oliveira.

Se nos anos 1970, seu Oliveira presenciou o auge da profissão, atualmente, ele sente um pouco a falta de clientes. No entanto, embora tenha uma convincente tese para esse declínio, o barbeiro, com bom humor, afirma que ainda vale a pena continuar no ramo:

“Essa doença que chinês tem de vender máquina de raspar cabelo e a comodidade dos condomínios, que hoje em dia têm de tudo, até barbeiro particular, afasta um pouco as pessoas das barbearias. Mas não culpo ninguém por isso, as coisas são assim. Tenho filhos formados em áreas diferentes, um deles é advogado. Se ele quisesse seguir minha profissão, iria apoiar, pois ele iria ganhar mais dinheiro” sorri.

Além do salão do Clube Monte Líbano, onde ele trabalha ao lado de uma manicure e uma calista, Oliveira tem mais dois salões na zona oeste da cidade do Rio de Janeiro. Um em Bangu, bairro em que reside, e outro em Campo Grande.

“Em Bangu eu botei um nome bem popular, ‘Barbearia do Zé’ e em Campo Grande se chama ‘Luciana’, em homenagem a minha filha. Eu amo o que eu faço, minha paixão é ser barbeiro. Pretendo continuar fazendo o que gosto enquanto minha saúde deixar”, finaliza Oliveira.